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Trespassing of Boundaries and Unification of Differences Through Art

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Escultura de Spartak Dermendjiev

 Sobre o blog (About the Blog)

Como conclusão da minha graduação em dança, criei e dancei um solo chamado “Dorme, dorme, Frankenstein”. Entretanto, ele não foi uma adaptação da novela de Mary Shelly. Na verdade, todo ele girava em torno do sentimento de solidão de uma criatura, originalmente muito boa, mas que tinha uma aparência medonha e assustadora. A partir daí, teci algumas reflexões sobre determinados aspectos da condição humana como afeto, apego, sexualidade, beleza, feiura, marginalização, adequação, inadequação, normalidade, anormalidade, fragilidade e força.

Um ano depois, recebi como presente dos céus uma doença neurológica grave. Assim, em vez de prosseguir minha carreira, precisei fazer uma intervenção cirúrgica. Sarei, porém fiquei com metade do corpo parcialmente paralisado. Foi então que, talvez porque o personagem da peça fosse um menino com uma deficiência física e eu tenha ficado com uma logo depois de tê-la criado e encenado, associei este acontecimento à peça e passei a ver meu corpo como “frankensteiniano”.

Consequentemente, em vez de uma abordagem prática da dança, uma teórica, foi quase uma escolha forçada. Inseguro, me resignei ao destino e alguns anos depois, fiz uma especialização lato-sensu em Arteterapia e após outro intervalo de tempo, um mestrado stricto-sensu em Sociologia e Antropologia da Religião.

Na especialização, estudei o papel da arte na cura ou no tratamento de algumas patologias causadas pelo afastamento de uma norma/forma ou mesmo pela sua inteira transgressão. Nesses casos a indicação da Arteterapia procede, uma vez que as angústias, não raro acompanhantes desses movimentos, encontram expressão e solução nas artes.

Já no mestrado eu me deparei com questões como contemporaneidade, hibridismo e espaços fronteiriços, bem como com outras leituras acerca de saúde, doença e cura.

Com isso percebi que haviam intersecções profícuas entre as questões surgidas nessas três instâncias acadêmicas e na pessoal (a doença, seu tratamento e a deficiência), de modo que algo, até então individual, ganhava dimensões coletivas.

Monstros, híbridos e fronteiriços

Segundo esse raciocínio, no sentido de estarmos todos divididos entre forças contrárias ou vivendo em linhas bastante difusas no que se refere ao corpo, sentimentos, comportamentos, culturas e instituições, somos todos híbridos, fronteiriços e metaforicamente monstros.

Além disso, a sociedade que construímos e em que vivemos, continuamente nos expõe ao contato com fronteiras diversas. Portanto, é ela também monstruosa.

E como um antídoto para essa realidade esquizoide, ou como uma possível cura para ela, a arte é uma grande aliada por possibilitar a integração dessas facetas dissonantes.

Ou seja, no meu ponto de vista, a “doença” ocorre por conta de aspectos conflitantes que tornam organismos híbridos, fronteiriços ou “monstruosos”, e não importa se são aspectos físicos, psicológicos ou socioculturais; a “cura” designa a integração desses opostos em um todo orgânico; a arte, por sua vez, é a grande promotora desse processo.

Consequentemente, penso que todos nós, podemos nos espelhar em monstros, tanto que os dramas míticos que os retratam, inclusive aqueles muito antigos, guardam uma íntima relação com a vida contemporânea.

O ferido que cura

Um exemplo é o mito grego do centauro Quíron. Não obstante os centauros nem sempre sejam considerados monstros, talvez por não serem gigantescos nem destruidores, como tal possuem corpos com características misturadas e inclinações de alma conflitantes. Mais ainda, à semelhança de Frankenstein, que teve seu corpo construído com partes de outros corpos, também são híbridos e fronteiriços.

No mito, Quíron é acidentalmente alvejado por uma flecha envenenada. O ferimento, que seria letal para qualquer outro, não o é para ele que é um semideus e como tal não pode morrer. Assim, Quíron sofre de dores atrozes em eterna agonia.

Incapaz de curar a própria ferida, mas justamente por sua causa, ele se aperfeiçoa mais e mais na cura de lesões, torna-se perito e passa a sanar as feridas alheias. Transforma-se, assim, em um dos arquétipos do curador ferido.

Ele também vive entre duas tradições. Nele o comportamento instintivo e selvagem dos centauros opõe-se ao racional e cultivado dos humanos. Cindido entre as duas culturas, Quíron é, a um só tempo, selvagem e inimigo dos homens, culto e próximo deles.

Na verdade, esses conflitos internos são tão importantes que se exteriorizam e se expressam em um corpo metade humano e metade equino. Além disso, em uma das versões do mito, Quíron é ferido em uma batalha entre essas duas civilizações.

Sendo assim, este personagem é carregado de simbolismo. Nele o semideus, o semi-humano e o semianimal, reúne em si aspectos físicos, psicológicos e socioculturais que se digladiam e provocam uma “doença” ou ferida. Essa se materializa, sobretudo, em um corpo híbrido. Todavia, o próprio mito sugere uma cura ou mitigação do sofrimento pela integração desses aspectos conflitantes, pois mesmo que a dor não desapareça de todo, é assim amenizada.

Pelas razões descritas acima, reportei-me à peça e ao tema de monstros para escrever o livro Curadores feridos e outros frankensteins: quinze aposta nos opostos (leia parte dele em inglês aqui). Por considerar este blog como sua expansão e, como disse, por entender que os temas do hibridismo e da monstruosidade se adequem perfeitamente aos meus objetivos, o fiz novamente aqui.

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