centauros feridos

Blog que relaciona arte, movimento e cura.

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Equus

Desde criança eu adorava cavalos. Naturalmente, pensei em fazer algum tipo de esporte equestre, mas acabou que eu não pude. Então, esqueci do assunto. Ou melhor, apenas em parte, porque aproveitava as oportunidades que eu tinha para montar, em geral tocar gado na fazenda de um amigo.

Daí, fiquei com um lado do corpo paralisado. Isso prejudica, e muito, o equilíbrio, porque faz a gente perder a simetria corporal. Apenas com um lado do corpo forte, ágil e estável o bastante, chegar perto de um cavalo já era assustador.

Porém, desde a paralisia, eu tinha visto algumas coisas relacionadas com reabilitação e esportes equestres. Minha curiosidade foi ficando grande, e como eu estou morando no interior, cavalos acabam fazendo parte de um quotidiano meio próximo. Então, um dia eu fui convidado pra montar um cavalo numa aula de equoterapia que eu estava assistindo.

Eu não sei se eu tive medo. Acho que não. Na verdade, eu esperava por essa oportunidade. Sabia que os cavalos usados pra esse tipo de terapia precisam ser muito dóceis. Assim, depois de mais de 20 anos eu montei num cavalo novamente.

Em si isso já foi um acontecimento que merecia ser celebrado. Estar sobre um animal grande é maravilhoso.

Apesar disso, eu não posso falar muito dos benefícios da equoterapia, porque não a pratiquei por muito tempo. No entanto, fiquei impressionado, porque nesse curto período, tive ganhos que perduram e acho que vão perdurar a vida toda. O maior deles foi que eu recuperei a faculdade de olhar para o horizonte em oposição ao fato de que há 20 anos eu olhava para o chão pra evitar quedas e tropeços.

Olhar pra longe só é possível com as costas mais eretas. Por isso eu tive que retificar a minha e posicionar minha cabeça de acordo. Isso aciona a visão periférica, expande o campo visual do míope (eu tenho alta miopia) que é curto (e no meu caso, curtísimo), e o movimento como um todo melhora.. No começo, a insegurança é enorme, porém, é mais difícil cair assim do que quando a gente olha pro obstáculo ou para o chão.

Olhar para além do obstáculo meio que nos impulsiona para a frente. Já reparou que ao correr um animal mira um alvo adiante em vez de olhar para o chão. Ou melhor, se olham para ele é só pelo canto dos olhos. E os bailarinos e modelos de passarela? A eles é vedado olhar pra os pés para que o dancem e desfilem direito. Aliás, para o ator também. Não olhar para o público, e sim para seus próprios pés, faria sua ação no palco ser acabrunhada e tímida. Da mesma forma, os malabaristas não olham para as bolas, mas para um ponto fixo além delas.

Olhar para a frente, para a linha do horizonte, só foi possível para mim porque, ao montar um cavalo, a gente não precisa se preocupar com o chão. A propósito, nem o próprio cavalo olha para o chão, ou para o obstáculo que vai saltar, mas o vence e não cai (o que infelizmente nem sempre acontece com o cavleiro). Acho que temos aí algo a aprender, não só com os cavalos, mas com os animais em geral.

Since childhood I loved horses. Naturally, I thought about doing some kind of equestrian sports, but I couldn’t. Then, I forgot about it all. Actually, I only kind of forgot about it as I’d take the opportunities I had to ride, in general by tending cows in a friend’s farm.

Then, one side of my body got paralised and that badly affects one’s balance as we lose the physical symmetry. With just one side of the body strong, prompt and stable enough, even to get near a horse was scary.

However, since the paralysis I had seen things related with physical rehabilitation and equestrian sports. I was getting more and more curious, and as I’m living in the countryside, horses end up being part of a somewhat familiar routine. So, one day I was invited to ride a horse in a hippotherapy class I was watching.

I don’t know whether I was scared. I don’t think so. In fact, I was eager for an opportunity like that. I knew the horses for that must be very gentle. So, after more than 20 years I rode a horse again.

This was something that deserved a celebration. To be up there in the back of a huge animal was amazing!

Even so, I can’t talk largely about the benefits of hippotherapy as I didn’t practice it for a long time. However, I was impressed because over this short period I had everlasting changes that I think will last for my whole life. The greatest benefit was that I regained the ability to look at the horizon, in opposition to the fact that for 20 years I had been looking at the floor to skip falls and trips.

To look at the horizon is possible only with the back straight. So I had to straighten mine, and position my head accordingly. This triggers one’s peripheral view, expands one’s visual field (I’m very short-sighted), and all one’s movements get better. At the beginning, you get very infirm. Nevertheless, it’s much harder to fall this way than when we look at the obstacle, or at the floor.

To look beyond the obstacle also kind of drives you forward. Have you noticed that when an animal runs it looks straight to a target far away instead of looking at the floor? Actually, if they look at it at all, they do it from the corner of their eyes. And what about the dancers and catwalk models? They can’t look at their feet either to dance or walk well. By the way, the actors either. Not to look at the audience but to their own feet would make their actions on stage look too small and shy. Jut the same, the jugglers don’t look at the balls, but to a fixed point beyond them.

To look forward at the horizon was possible for me only because when one rides a horse one doesn’t have to worry about the floor. Actually, not even the horse looks at it or to the obstacles it’s going to jump. Nevertheless, it jumps them and doesn’t fall (unfortunately, the rider sometimes does). I think there we have something to learn not only from the horses, but from the animals in general.