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Trespassing of Boundaries and Unification of Differences Through Art


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SOB A AREIA

RCM outubro de 2019

ENTRE O DESASTRE E O RESGATE

Aberta à inúmeras interpretações e leituras, assim é a peça “Inferno: um interlúdio expressionista” inspirada no texto “Not About Nightingales” de Tennessee Williams.

Não cabe aqui uma sinopse. Muito menos uma crítica — até porque eu não sou crítico nem jornalista. Basta dizer que a peça segue quase integralmente o texto do dramaturgo estadunidense e que tece algumas reflexões sobre alguns temas.

Se as tece, não fecha conclusões em torno deles. Prefere levar o espectador a pensar sobre esses temas e, talvez, sobre outros insuspeitos ao próprio autor. No meu entender são: liberdade, aprisionamento, bondade, maldade, amor, submissão, dominação, direitos humanos, etc.

A ação se passa em uma prisão situada em uma ilha não muito afastada do continente, tanto que da sala do diretor da prisão, avista-se a cidade costeira de onde partem os barcos.

No prólogo, somos convidados a embarcar em um deles e fazer um passeio. Durante o “tour”, me lembrei de algumas situações que aconteceram simultaneamente na minha vida há cerca de vinte e oito anos.

De duas, uma cirurgia neurológica e a sequela dela advinda, eu já falei em outros textos. De outras, a dissolução de um relacionamento afetivo importante pra mim e a falta de uma renda que permitisse que eu me mantivesse em São Paulo, eu cito aqui pela primeira vez.

Depois do rompimento, eu analisei as minhas possibilidades e conclui que precisaria voltar a morar com os meus pais. No entanto, eles estavam morando em uma chácara perto de São Paulo, mas no “mato”; sem muita escolha, lá fui eu. Afinal, só ia ficar uns dias… Acabei ficando quatorze anos!

A viagem de trem (o meio de transporte pra se chegar à cidadezinha) e a localização da chácara podem ter favorecido uma espécie de fuga dos meus problemas, mas, como diz o poema de Hilda Hilst, “os trens não vão para lugar algum …, tu podes ir e ainda que se mova o trem, tu não te moves de ti.” Daí que, passados quase trinta anos e quase cinco que estou de volta à cidade grande, algumas coisas permaneceram. A sequela cirúrgica e a falta de grana, por exemplo. Já outras se somaram aos acontecimentos há pouco mencionados.

  1. Eu trabalhava com tradução que, entre tantas coisas, exige estar conectado quase o tempo todo. Só havia internet discada a época e a taxa de criminalidade na região era alta. Todas as semanas, durante quatro anos, ladrões aproveitaram-se de um trecho deserto da estrada local, assim como da imunidade oferecida por um delegado corrupto, para roubarem os cabos telefônicos. Em consequência, ficávamos sem acesso à internet nesse período. Isso tornava impossível o recebimento de trabalhos ou a sua devolução no prazo. Assim, perdi meus clientes e a minha única fonte de renda.
  2. Apesar de a cidade em que a chácara se localiza ser servida por ônibus intermunicipal, distar só quarenta minutos de carro de São Paulo e 1h de trem, pouquíssimos amigos me visitaram. Dessa forma, eu “fiquei no buraco” cerca de um decênio e meio. Felizmente, tinha uma família maravilhosa pra quebrar o isolamento enlouquecedor. Entretanto, não tive muitas possibilidades de buscar outro relacionamento afetivo ou mesmo de curtir boas amizades com o pessoal da minha idade e com os mesmos interesses que eu.
  3. Outro agravante foi o fato de eu não dirigir e de ter que depender de um transporte público muito ruim. Esse impedimento foi bastante piorado pela topografia de uma região tão acidentada, que tornava caminhar um martírio, e também pelo afastamento da chácara, que ficava em um bairro que “dormia” cedo.
  4. Dançar, nem pensar. Foi nessa época que eu passei a acreditar que eu não poderia mais fazer atividades físico-artísticas após a cirurgia. Na época, ainda traumatizado, ver meus colegas em cena sem que eu pudesse estar no palco, era meio como ver a vida da janela ou, como na peça, observar as luzes se acenderem e se apagarem na cidade, próxima, porém inacessível aos prisioneiros da ilha.

Enfim, essa quase década e meia na chácara me marcou até mais do que a sequela cirúrgica. Foi como se eu estivesse em prisão domiciliar pagando por um crime que eu nem sabia qual havia sido. Isso, quando muitos políticos corruptos e até assassinos não pegam quinze anos ininterruptos de cana, mesmo se merecerem e eu não ter o benefício de ir para o regime semiaberto depois de cumprir 1/6 da pena.

Além disso, eu não posso nem processar, nem cobrar indenização da justiça divina. ao contrário do que eu teria o direito de fazer se essa injustiça houvesse sido causado pela justiça comum.

Então, não foi só, como na peça, a sociedade que me mostrou as possibilidades do meu aprisionamento ou, por extensão, do aprisionamento do ser-humano em geral mas, sim, a vida.

Logo, quando um dos personagens de “Inferno” se joga ao mar para fugir da cadeia e fala que não sabe se vai sobreviver, mas que prefere se arriscar porque assim, pelo menos, estará do lado de fora, me fez perguntar a mim mesmo se haveria alguma chance de evasão do nosso aprisionamento existencial ou se poderíamos sequer experimentar uma liberdade real. Em suma, homens e mulheres, somos todos “Homens à Deriva”. Por isso, talvez, a peça se insira em um projeto assim intitulado.

A condição faz sentido, uma vez que é frequente estarmos nos desviando de uma rota, flutuando ao sabor da maré, beirando o precipício. Nos encontramos entre o desastre e o resgate, em uma espécie de limbo: nunca em um ponto exato, mas sempre na sua cercania.

Essa afirmação ressoa com o meu blog, AMtro – Aliança dos monstros. Coloquei esse nome no blog porquê para mim, monstros são criaturas belas ou feias, boas ou más, gigantescas ou diminutas. Contudo, seus corpos ou caráter híbridos sempre manifestam contradições internas e externas, visíveis ou invisíveis. Dessa forma, “monstros” podem ser imigrantes, pessoas com deficiência, e até o ser-humano contemporâneo, habitante de uma sociedade global ou, que chamo de “monstruosa”, por nos colocar o tempo todo em contato com o diferente.

E falando de deriva, de hibridismo e de estar entre A e B, não deixa de ser irônico que a chácara onde residi fique no meio do caminho entre São Paulo e Campinas. Em São Paulo, eu nasci, cresci e fiz vínculos. Daí abandonei tudo pra cursar a faculdade em Campinas. Por cinco anos, foi lá que eu morei e fiz vínculos que, achava, seriam permanentes. Mas eis que surgiu a doença e, por causa dela, precisei voltar para São Paulo. Depois acabei em uma cidade no meio das duas com uma condição física que acomete metade do corpo e que me tornou “meio” deficiente. E um amigo me fez perceber algo hoje: até agora eu vivi metade da minha vida sem nenhuma deficiência e metade com ela.

Portanto, me considero um homem à deriva e me identifiquei bastante com as angústias e contradições retratadas na peça. Aliás, falando nisso, me lembrei de um livro intitulado “O teatro e a angústia dos homens”. Por um momento, me senti parte deste livro, pois a minha angústia é universal e, como tal, está retratada em uma peça que foi escrita muito antes de eu nascer.

Mas, eu quero mudar de tom.

A CENOURA DO BURRO

No bate-papo com o elenco depois da peça, alguém comentou da engenhosidade e beleza de uma parte do cenário construída apenas com cadeiras de ferro empilhadas. O diretor respondeu que a escassez algumas vezes é boa. Assim, em um dia em que tinham só cadeiras, as empilharam no ensaio para criar um cenário. A solução ficou tão boa que, de provisória, passou a permanente.

Essa questão me faz pensar na gravurista e arte-educadora Fayga Ostrower. Ela dizia que, em vez de aprisionar, o limite orienta a criação. Em um de seus livros, descreve um jogo grupal em que uma pessoa traça uma linha, depois, uma segunda continua o traço da primeira, até que todos tenham traçado linhas continuando a anterior e deem o desenho por encerrado. Mais do que apenas continuar as linhas anteriores, todas linhas acabam sempre tendo alguma relação com elas ou com o todo. De certa forma, a primeira linha define o desenho que vai acontecer. Nesse sentido, o limita.

No fim, além de refletir sobre o limite, Fayga também aborda o que seria a verdadeira liberdade. Para ela, liberdade não significa fazer qualquer coisa, o que, no caso, significaria fazer qualquer desenho ou traçar qualquer linha. É, sim, fazer escolhas adequadas, porquê ao percorrerem essa aparente “prisão”, as pessoas fazem desenhos de grande liberdade criativa, como são os desenhos compostos de linhas orientadas pela linha anterior.

Concluí: o verdadeiro artista se impõe limites, sobretudo na maturidade. E assim, voltando à questão da falta de recursos de cenário, que era um limite, elenco e diretor o encararam, viram o que poderiam fazer com ele e mostraram grande maturidade criativa.

Algumas semanas antes de ver “Inferno”, vi um filme sobre o judoca Max Trombini. Depois de não passar em uma seletiva pra realizar seu sonho olímpico, ele, arrasado, conversa com seu mestre sobre sua imensa frustração. O mestre lhe pergunta se ele já viu um burro andar e conta como o condutor amarra uma cenoura em uma vara e a coloca na frente do burro que, pra tentar alcançá-la, tem que andar. Chegando ao destino, o condutor alimenta o burro e lhe dá de beber, mas não lhe dá a cenoura.

Entretanto, se o burro olhar para o caminho que percorreu, encontrará muita coisa positiva, e vai continuar encontrando, talvez até uma cenoura. Daí o mestre sugere que Max faça o mesmo que, com certeza, irá encontrar coisas boas. Isso se ele der uma chance à vida. Aceitar o que estiver diante dele e viver o presente, sem pensar no passado ou no futuro. Ainda finaliza: medalhas enferrujam, mas não os valores acumulados.

Os últimos exemplos de saída de uma aparente prisão pelo acolhimento das grades ou dos limites, são o de Hélio Gracie e B.K.S. Yengar. Hélio teve a sabedoria de encarar os limites do seu corpo e adaptar o Jiu-jitsu japonês à sua fragilidade. Criou assim o Brazilian Jiu-jitsu. Um feito cada vez mais reconhecido, no Brasil e no mundo.

B.K.S. Yengar fez algo parecido com o yoga. Ele também tinha um corpo frágil que destoava do corpo dos praticantes da época. Não se apertou. Levou isso em conta e criou um sistema de yoga voltado para todos. Com o tempo se tornou um dos professores de yoga mais respeitados do mundo. Ambos criaram novos saberes e novas modalidades.

VELHOS OSSOS E VELHÍSSIMA AREIA

A arqueologia tem me interessado muito nos últimos tempos. Os ossos de aparência sólida e imutável guardam pistas inacreditáveis. A importância deles é tanta, que algumas culturas fazem dois funerais: um para as partes moles do corpo e outro, dez ou vinte anos depois, para as duras.

Esta noite eu sonhei que fazia escavações na areia e que dançava no deserto, uma dança meio cigana, tão antiga quanto ruínas e cacos de objetos antigos. Era o contato com algo muito ancestral.

Venho me sentindo assim, velho e curtido. Nada frágil e combalido mas, ao contrário, forte e experiente.

Lembro de Gandalf furioso em um dos filmes de “O Senhor dos Anéis”. Sua fúria vinha carregada de autoridade e de sua consciência de ter um profundo saber acumulado pelo tempo.

Lembro também de Omolu, um orixá antiquíssimo. Um dos meus orixás. Ele cobre de palha o corpo marcado pelas chagas da varíola. Vive numa caverna. É mal-humorado e ranzinza. Sua ira provoca enfermidades e pestilências. Porém, da mesma forma que as causa, cura-as.

Também me lembro de uma professora de yoga da adolescência que dizia que eu tinha um espírito muito velho.

Nós velhos somos feitos de rocha moída e desgastada pela água e pelo vento. Por milênios fomos tensionados, esmagados, carcomidos. Finalmente, transformados, em areia, formamos dunas proeminentes e cânions profundos onde escondemos antigas pirâmides, civilizações perdidas, ossadas pré-históricas, objetos primitivos, cidades fantasmas, múmias ancestrais, fragmentos antediluvianos, estátuas desfiguradas e ornamentos magníficos.

Como seres lunares, da mesma forma, ocultamos espectros da noite e amigos das trevas como escaravelhos, escorpiões, lagartos e serpentes.

Mas meu orixá principal é Oxum, um ser solar. É a rainha da águas doces que abundam nos oásis. Certamente tem nelas um palácio. Formosa, altiva e ornada com muitas peças de ouro. Seria essa rainha a cigana que dança no meu sonho? Seria ela ele, um rei e um cigano? Seria os, assim no plural? Os nômades do deserto, os tuaregues, os dono de uma sabedoria de quem sobrevive há milênios em um ambiente hostil?

Eu estou cansado. Não aguento mais negar o velho que sou nem esperar o rei que sonhei ser na juventude.

Já fui muito esmagado; já briguei muito; a areia já me engoliu e já sufocou; Entupiu-me as narinas e obstruiu-me a boca! Não há nada mais a fazer.

Vai ver que o rei é velho.

Se for, eu só quero lhe dar boas-vindas. Abraçá-lo. Incorporá-lo. Amá-lo. O Rogério que era bailarino e belo aos vinte e oito anos morreu há muito tempo … e pela metade. Algumas vezes chego a pensar que foi pena ele não ter morrido por inteiro. Mas cá está ele, vivo pela metade (Por isso chego a pensar que Deus é um menino sádico, que em vez de pisar na barata e matá-la de instantâneo, prefere arrancar-lhe as perninhas uma a uma pra vê-la se debater até morrer lentamente de fome). E o Rogério de cinquenta e seis, tá custando a nascer. Por enquanto ele é um vivo-morto.

Mais alguns seculozinhos, talvez.

Mas se demorar muito tempo pra surgir, despontará nati-morto.

O fato é que a exaustão chegou pra ficar.

Portanto, só quero desistir de lutar. Assumir que não preciso provar nada a ninguém. Relaxar. Não gastar mais energias. Não sentir mais dor por algo que achava que deveria ter acontecido, mas que não aconteceu. Tirar férias e boiar no mar sentindo o calor do sol na pele

Enganar-me ou não, que importância têm? Mesmo que a vida tenha me traído, ou que seja uma prisão em uma ilha, desejo crer que ela é bela.

Voltar a viver.

É só o que importa.

Oxalá assim eu encontre minha cenoura.

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Após tirar cisticercos de tênia do cérebro, dança o ajudou a seguir ativo – 13/10/2019 – UOL VivaBem

Source: Após tirar cisticercos de tênia do cérebro, dança o ajudou a seguir ativo – 13/10/2019 – UOL VivaBem


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Abraço coletivo

R.C.Migliorini

Quem segue esse blog sabe que saúde do corpo e forma física associados à arte importam tanto pra mim que eu escolhi dedicar minha vida a eles. Sabe também que logo após eu ter me formado em dança, o lado esquerdo do meu corpo ficou parcialmente paralisado por causa de uma sequela cirúrgica.

Com tal desfecho, essa decisão ficou bem mais complicada, é claro. Contudo, mais de vinte anos depois, continua valendo. Talvez eu já devesse ter desistido, afinal já não sou mais jovem. Porém, fazer o quê se eu sou, no mínimo, teimoso?

Há muito tempo, em uma crise inicial da doença que me levou à cirurgia, eu preparava minha festa de aniversário. Ao comprar refrigerantes, eu conversava com o vendedor com a mão direita em cima do balcão do bar. Enquanto isso, eu escondia atrás das minhas costas a esquerda que, em espasmos, ganhara vida própria e se mexia como uma aranha.

Desde então, passei a evitar ações que expusessem meu corpo “torto”, pois a sequela resultou em uma patologia que aparece mais quando eu me movo. Quando estou parado, pouca gente a percebe. Sendo assim, eu procurava não estender o braço, não caminhar, não cair, não tropeçar em público. Se isso fosse inevitável, eu ocultava ou disfarçava o ato de algum modo.

As minhas ações de camuflagem aumentavam de intensidade se o público fosse de gente atlética, de pessoas com uma grande habilidade de movimento, ou ainda de colegas que atuassem ou dançassem.

Porém, não demorei muito a perceber que esse meu modo de agir prejudicava ainda mais meu corpo, meus movimentos e minha interação com o mundo. Enfim, basicamente comprometia minha segurança e autoestima.

Foi então que um dia, conversando com um rapaz com uma paralisia cerebral grave, vi como ele ficava feliz de ir a um bar com os seus amigos. Não importava que, por ser cadeirante, ele não pudesse subir a escadaria de acesso ao bar nem que fosse carregado escada acima. Muito menos importava sua dificuldade na articulação de palavras e que ele precisasse repetir seu pedido inúmeras vezes – isso depois do garçon ser convencido de sua capacidade de fazê-lo por si mesmo. Ele nem levava em conta sua descoordenação na hora de estender a mão pra chamar a atenção, pegar ou apontar qualquer coisa.

Já que sua deficiência era totalmente visível, aquele rapaz não podia esconder nada nem evitar qualquer ação em público. Mesmo que ocultasse seu braço afetado, o outro, igualmente afetado, teria que ser exibido. Sob a pena de jamais se comunicar verbalmente, não podia emudecer para encobrir uma fala disártrica. Tinha que encarar com tranquilidade ser carregado escada acima até o salão lotado. Porém, em vez de envergonhado e retraído ou achar que estava sendo exposto, apesar de tudo ele ficava feliz por estar com os amigos.

Comecei, então, a pensar em vergonha, exposição, diferenças e limites.

Como eu disse, ambientes de malhação, de grande atividade esportiva e de exibição de corpos malhados, passaram a me inibir muito depois da cirurgia. Porém, em função da conversa com o meu amigo, comecei a encarar esse ambiente e esses corpos de modo diferente.

Eu morria de vergonha de simplesmente andar na frente dos outros. Atualmente, eu até corro nas aulas da academia, ainda que com isso a minha descoordenação fique bem mais evidente. Antes eu evitava movimentar a mão esquerda; hoje me vi na sala de musculação esfregando o rosto com essa mão. Em suma, percebo aí pequenas conquistas.

Eu não estaria correndo nas aulas, ou esfregando a mão esquerda no rosto, se não estivesse me permitindo pagar mais micos, reaprendendo como interagir com as pessoas, aceitando ser o mais desengonçado da sala.

Tampouco estaria me expondo desse jeito se a minha habilidade de rir de mim mesmo não houvesse aumentado. E, pasme: a minha capacidade de rir com os outros também.

Sendo assim, ganhos vieram daí: além dos psicológicos, como melhora da autoestima e aumento da segurança, os físicos. Foi essa exposição que me possibilitou começar a ir em um ambiente em que profissionais, atividades e frequentadores focam o trabalho com o corpo e seus movimentos. Até jiu-jitsu eu estou fazendo.

Sobre o último, eu coloquei a palavra Awhi (pronunciada áfi) na minha faixa. Ela é uma palavra do povo maori da Nova Zelândia, que significa abraçar, acolher, aceitar, louvar e, em tradução livre, porque não encarar? Pra completar, soube que um dos povos do Xingu diz que, quando caímos é porque o chão quer abraçar a gente. Assim, meus respeitos aos chãos e aos tatames da vida. Graças aos abraços de e em um tatame estou encarando e abraçando cada vez mais, assim como cada vez mais sendo abraçado por pessoas, corpos ou movimentos.

Não importa se são meus, dos outros ou seus. O fato é que esse abraço coletivo está ficando cada vez maior – e melhor!

ago 2019

textos relacionados: <https://rodadecura.wordpress.com/2017/10/04/o-patinho-feio-versao-danceability/> < https://wordpress.com/block-editor/post/rodadecura.wordpress.com/1837 >


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Move with Thy Neighbour

I wrote the present paper based on another one written about 10 years ago for a master in Religious Studies. It dealt with movement in the inter-religious dialogue. After reading it again, I decided to write another version of the original paper without focusing so much on the religious aspect of a dialogue. While in the process though, I could not keep from recalling the many cases of religious, ethnic, gender and cultural-based violent attacks that, unfortunately, abound everywhere in the world since time immemorial. I could not forget the strengthening of far-right parties, the burgeoning of white supremacist groups, or the growing diffusion of hate-speeches. What about the killings of women just for being women; the persecution of indigenous peoples; the slaughter of LGBTQ+ people. Could I ignore them? Could I overlook the bullying of kids in many schools around the world as well as in the social media? Actually, for me they all are difference-motivated. So were the Christchurch mosque terror attacks in New Zealand that shocked me a lot. Alarmingly, humanity has not had enough of these and more is sure to come. Then I asked myself what I could do about this state of things, and here is my humble answer to this question

Embodying the Unity That Binds Us All Together

Man is alone before the incomprehensible: anguish, fear, attraction, mystery. The words are useless. Why call it names like God, Absolute, Nature, or Fortune? The necessary thing is to get in touch. What man seeks beyond comprehension is communication. Dance springs from this need of uttering the unutterable, of clearing the obscure, of being in relation with another. Maurice Béjart

Physical movement is the normal first effect of mental or emotional experience. John Martin

What Christ is saying always, what he never swerves from saying, what he says a thousand times and in a thousand different ways, but always with a central unity of belief, is this: “I am my father’s son, and you are my brothers.” And the unity that binds us all together, that makes this Earth a family, and all men brothers and so the sons of God, is love. Thomas Wolfe (THOMPSON, 1977)

Close Encounters of the Third Kind

Globalization brought us religious, social, and cultural encounters that one cannot avoid anymore. In Lieve Troch’s words, “To be able to engage in dialogues is the only way we can truly live in this reality…” (PIERIS, 2008, p. 12.)

Thanks to my basic training in The Art of Movement and a lifetime fascination for non-verbal communication, when I ruminate on the above I remember Maurice Bejárt’s excerpt quoted above.

It came from the choreographer’s experience during a holiday trip to a Mediterranean Island, when he had the opportunity to live the fishermen’s lives for some weeks. He points out: “when after the working day the men got together and started talking, they ended up quarrelling; however, when instead of talking they danced, they celebrated life without the need of words. At these moments, opposite to what happened in the former situation when incomprehension and heated debate took over, the keynotes were harmony and union”. (GARAUDY, 1973).

This experience suggests the importance of movement to the harmony and union among people. In addition, it also hints that motion may be even more effective to achieve them than the words themselves. I believe it is true because the interaction through movement enables a dialogue based on feelings and emotions rather than on rational arguments; therefore, such an exchange can go smoothly and fluidly.

I substantiate my statement by saying that there is nothing more natural than to follow the approach of ancient civilizations, as they never detach the verbal and rational from the non-verbal and inexpressible through words [ ]. (AMARAL, 2003; GUERRA, 2007).

Chatting, Not Bickering

We consider a dialogue not only any verbal conversation, but also any conceivable means through which a person can establish an equal relation with another. Thus, we believe that through non-verbal exchanges in movement-based workshops, one can develop abilities such as to truly look at, listen to, and physically, spatially, emotionally and spiritually relate to a person from a different background or with a diverse physicality thanks, mostly, to the momentary suppression of any logical argumentation movement allows. To root this approach, we link the integrative power of movement and non-verbal communication to Lieve Troch’s, Maurice Béjart’s and Rudolf Laban’s thoughts.

Troch is a feminist theologian based in the Netherlands that has taught in many countries, including Brazil. Béjart was a French choreographer, who created and directed one of the most important dance companies of the day, and Laban, a Hungarian architect, a dancer and a choreographer as well as a researcher of the human movement, was one of the pioneers of modern dance.

The Art of Movement

Created by the Hungarian researcher and artist Rudolph Laban (1879 – 1958), the Art of Movement was based in his method of movement analysis and practice called Effort/Shape. Laban’s compatriot Maria Duschenes, with whom I had the privilege to study, introduced both developments in Brazil during WWII.

E/S allows the description, recording, and analysis of the physical, spatial, and dynamic features of movement so that through their observation new possibilities of action can be suggested. This method has been used to coach athletes, business managers as well as to interpret politician’s and religious leaders’ non-verbal communicative styles and even to examine the behavioural patterns of animals such as planarian worms, dolphins, bears, and wolves.

The Art of Movement, the artistic and educational version of the E/S system can also be applied to a number of different situations. Could it also help what we understand by dialogue?

Inner organization

The Art of Movement offers ways to organize one’s body, feelings, emotions, and thoughts

by enabling the person to relate internal attitudes with external shapes of movement, by increasing their expressive movement vocabulary and eventually by giving them the ability to transform their actions into emotional symbols through ordered patterns and rhythms (MIRANDA, 1980, p. 12).

It also believes that

movement considered […] — at least in our civilization — as a servant of man and employed to achieve an extraneous practical purpose, was brought to light as an independent power creating states of mind frequently stronger than man’s will (LABAN, 1975, p., 6).

Words Versus Action; Movement Versus Quietness

Together with some Eastern and Western foundations of theatre such as the Noh theatre and the Commedia dell’arte, and with some contemporary development of theatre as well, the Art of Movement bases the actor’s craft on actions rather than on spoken words. It does so mainly by focusing on how a movement is performed since it gives their expressive qualities. As an example, just imagine the same movement being performed quickly or slowly. By exporting this concept to the ordinary world, it sees neither actors nor dancers nor ordinary people as very different from each other.

The Art of Movement, then, tries to capture the human purposes that are always expressed through actions whether they lay visible or not. Therefore, although the moving or acting body fuels contemporary dramaturgy, stillness and quietness (pause) are also embedded in it considering it believes pauses are crucial for one to catch one’s vital impulses.

We expand this idea a bit by saying that to do it, contemporary theatre and the Art of Movement require performers to get in close contact with their inner selves by emptying, quieting, and silencing their minds. Paradoxically, one of the ways of meeting this aim is by keeping the focus on the outer body. Eventually, one gets through, and those impulses show off by means of physical and expressive actions.

Metaphorically, we can say that these actions take place because the muscles “sing” a song that is a physical expression of the soul. By listening to this song, the actors reach the state of introspective quietness and reach their very souls, the utmost source of all physical actions.

Just like them, the ordinary people depart from the concrete and profane body to reach the spiritual, the transcendental and the sacred one. (JANÔ, 1986; MARTIN, 2007)

Non-Verbal Communication: A Transgression of Frontiers

In her article Exercises on wonderment: frontiers and transgression of frontiers (Exercícios em maravilhar-se: fronteiras e transgressões de fronteiras) the feminist theologian Lieve Troch (2007) writes about borderlands, empty territories, and no one’s land. She tells about the pleasure she felt every time she went to the beach in her childhood. At those occasions, she enjoyed “staying for hours in the shoreline where sea and sand meet” (idem, page 50). She says that this line never stops moving. Therefore, the frontier it designs is continuously being recreated. In this ever-going movement, both sea and land get a bit of each other.

In other words, movement can turn solid and isolationist boundaries between distinct bodies into fluid and flexible ones so that they can blend. For Troch, to walk along the waterline is the same as to find out “the empty space between two different places, or a third country, or to walk between two worlds” (ibid.). This place “has a different face than either land or water” (ibid.).

Dance: An Experimentation of Relationships

She further refers to ballroom dance and says that in this game of the sort “the partners meet in the act of playing with the space between them and with the rhythm of the music in “a balance that must be re-established over and over again” (idem, page 51). This ever-changing space is an intermediate territory where they experiment with their relationship. (ibid.). She continues: the dancers may have the impression that space itself moves as their moving bodies constantly transform it. Therefore, when dancing, they play with this intermediate territory, with their role as leader and follower, with their singularly, and with their co-operation.

This way, Troch talks about the existence of rigid frontiers that need to become flexible to enable the parts to define equal terms. A dialogue would do that as it supposes a meeting in an intermediate territory or in a third country that may not even physically exist. In that case, its creation depends on the will and predisposition of each party involved in the exchange of ideas, and in this territory it is mandatory to look at just as to listen to one another.

If a dialogue is a dance of the sort, and vice-versa, I believe that there is nothing better to promote it than dance itself, or rather, a movement centred practice able to turn rigidly traced lines, limits, and frontiers into flexible ones.

Consequently

This approach

  • fosters one’s contact with one’s emotions, feelings and thoughts,
  • provides one with a tool to concretely organize them,
  • helps the development of individual and group identity,
  • enhances self-esteem, and
  • empowers voiceless persons.

Finally, by making positive use of one’s differences and abilities it

  • makes one aware of the advantages of any difference.

As all the interested parties wholly obtain the above, the Art of Movement enables a rich non-verbal dialogue.

Final Considerations

My experience with the power of movement was very different from that of Maurice Béjart’s. Over twenty years ago when a friend showed me a video from a company of Deaf American dancers, it became clear to me.

As a hearing person, I could note the respect for their partners’ body and movement in the way they moved together. I believe that it was because they knew movement enabled contact, organization, communication, and expression of something they could not express through words; it was, then, their way to get through to their audience, either Deaf or hearing.

Their lifelong experiences with movement allowed them to express and truly share something from deep within their souls that they could not express through words nor , to share it with anyone regardless of the language they spoke.

Thus, I believe that whenever emotion and feelings partake in the communication, I think they do not need — or should not need — be conveyed through any spoken language or words. In these cases, they pass from person to person, soul to soul, and everything that separates people ceases to be.

Would we need to become unable to communicate verbally to understand the power of non-verbal communication and movement? Are we like some hearing people that paradoxically are deaf to the voice of many of our brothers and sisters?

Then, instead of talking, thinking, and discussing dogmas, we should emulate the brilliant Mediterranean fishermen and dance. Maybe, by doing so, we could experiment the true union that we cannot experience from the top of our intellectual knowledge, and through dance and movement truly relate to the other and feel we are part of a whole. This way, perhaps we could say — not necessarily with words —, to whoever is beside us: the God in me greets the God in you. Namastê!

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