Roda de Cura/Centauros Feridos

Arte, saúde e seres híbridos: transgressões e integrações de fronteiras


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Delimitação versus delírio

(R. C. Migliorini)

Ao encontrar uma barreira como um paredão de rochas, um rio não para. Simplesmente se desvia e corre em outra direção. No percurso, ganha cachoeiras, corredeiras, afluentes e curvas sinuosas. Mais do que isso, um simples regato pode tornar-se um rio tão caudaloso quanto o Amazonas. Por conseguinte, as barreiras, mais do que impedir o curso do rio, definem a sua forma.

Com isso, sugerimos que limite é forma, já que graças aos contornos particulares de cada uma, as reconhecemos. Assim, diferenciamos o céu das nuvens, da chuva, do pingo d’água e da poça. Da mesma forma, distinguimos uma pessoa da outra, pois são os limites que nos fazem singulares.

O limite também é essencial à organização. Por exemplo, creiamos ou não na criação do mundo, Deus começou Seu trabalho separando a luz das trevas. Criou, assim, limites para uma e outra. De modo semelhante, fazemos o mesmo ao apartar o joio do trigo, os animais domesticáveis dos selvagens e a lavoura do matagal. E também ao separar o tempo em parcelas menores como anos, meses, semanas, dias, horas, minutos e segundos para melhor ordenar nossas ações em relação a ele.

Já a conexão entre saúde e organização se dá, porque o câncer pode ser descrito como um crescimento desordenado de células. Na esquizofrenia, por sua vez,  há a perda dos limites que circunscrevem o Eu, inclusive fisicamente, e o destacam do entorno. Tantos são os casos que restabelecer a saúde, me parece, implica em recompor limites e fronteiras.

O limite é, sim, imposto pela realidade. Porém, ao contrário do que parece, não é algo que constrange ou impede a expressão. Fayga Ostrower ilustra muito bem essa ideia dizendo que tal como as margens de um rio, ou como a praia e os continentes, o limite permite que nos aventuremos por águas turbulentas com a certeza de sempre podermos voltar a terra firme quando necessário.

Sabendo disso, a pessoa criativa não se ressente dessas possibilidades; antes se adapta a elas e começa sua criação a partir do limite que a realidade lhe impõe. Assim, no que tange a este texto, o limite é o seu número de caracteres à minha disposição. Essa realidade material já determina certos caminhos e certas escolhas e, ao mesmo tempo em que algumas precisam ser descartadas, outras tantas devem ser adotadas. Ou seja, criar é um ato contínuo de fechar e abrir possibilidades.

Em verdade, ao criarmos lidamos concomitantemente com a realidade imutável e com a fantasia, pois o fato sem o sonho torna-se assaz opressivo, e o sonho sem o fato não passa de puro delírio.

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Um acesso aos afetos

(Rogério C Migliorini)

 

Há alguns anos, uma colega e eu demos aulas para educadores da extinta FEBEM. Eles trabalhavam com os menores que residiam nas casas-abrigo da instituição e nelas atuavam como uma espécie de pais substitutos.

Nosso objetivo não era o de ensinar aos educadores nada que fossem utilizar com as crianças abrigadas nas casas,. O nosso trabalho visava o bem-estar dos educadores em si, já que acreditávamos que essa mudança de foco influenciaria de modo positivo a relação deles com as crianças e adolescentes assistidas por eles.

Lembro-me de uma das minhas aulas que se apoiou no conceito de objeto transicional, na teoria do apego e em estudos sobre o amor em filhotes de macacos Rhesus. Essa base já havia me levado a realizar a montagem cênica “Dorme, dorme, Frankenstein” e voltou à tona recentemente no meu livro Curadores ferido e outros frankensteins: quinze apostas nos opostos.

Também lembro-me de um post recente em que mencionado experimentos em psicologia com cães, ratos e macacos, sem deixar de nele fazer referências a Skinner e Pavlov.

E finalmente, tenho verdadeira paixão por etologia, o estudo do comportamento animal.

Mas enfocando o que nos interessa, na sala havia inúmeras bolas grandes de ginástica. Em pares com uma só bola, os educadores precisavam caminhar até determinado ponto rolando pelo chão a bola de um para o outro. Entretanto, eles tinham que fazer tudo isso contando uma história sem palavras. Por exemplo: poderiam impulsionar a bola com suavidade ou com violência, e recebê-la com delicadeza ou com ares de pouco caso.

Nesse percurso, mesmo que nada tenha sido dito, o objetivo era que eles usassem a bola como um objeto intermediário, transferindo para o objeto seus sentimentos de afeto, raiva, hesitação, e assim por diante. Esse sentimento seria expresso no movimento inicial da ação corporal de passar e receber a bola. Assim, sem que eu tampouco falasse nada nesse sentido, o movimento expressaria algo concreto.

Antes de encerrar a aula pedi que fizessem uma improvisação coletiva, quando deram muitos sentidos à bola e a aos seus movimentos.

Como havíamos previsto, os educadores se ouviram e por terem se sentido gratificados e valorizados por uma atitude que, em última instância, favoreceu essa autoescuta, passaram a ouvir melhor seus jovens companheiros de jornada.


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Cura: uma via de mão dupla

R. C. Migliorini

Em dado momento eu resolvi participar de um ritual do Daime. Nele há a ingestão de um chá considerado alucinógeno por alguns. Confesso que eu estava temeroso, porém, mais por causa da cirurgia neurológica a qual me submeti, do que pela possibilidade de eu estar ingerindo uma droga que não fosse aspirina. Eu não sabia como meu cérebro iria se comportar. E se eu entrasse em uma viagem sem volta?

Sabendo disso, o mestre que conduziria o ritual, em vez de me impedir de nele participar, disse que faríamos o seguinte: eu tomaria o chá em pequenas doses e, conforme a minha reação, ele as aumentaria ou não, até chegar à dosagem comum a todos os participantes. Assim fizemos, e tudo transcorreu de modo absolutamente tranquilo.

Refletindo sobre tudo, conclui que se eu havia sido corajoso, o mestre também o fora, pois se prontificou a mergulhar em uma região obscura para nós dois. Também me assegurou que estaria ao meu lado durante todo o processo e que me protegeria se preciso fosse. Essa afirmação, acrescida da sua experiência e tranquilidade, foi suficiente para eu sentir confiança e encarar a aventura. Portanto, mais do que as certezas que um mestre deveria ter, sua atitude dizia que eu podia esperar companheirismo.

Extrapolando para o contexto terapêutico, eu diria que o terapeuta que permanecer inflexível no seu papel de agente ou, em outras palavras, que não tiver dúvidas de que sabe mais sobre o paciente que o próprio, corre o risco de não ouvi-lo. Então, trata-o de cima para baixo e não se dispõe a encarar o desconhecido com ele, nem a sentir seu medo ou a escutar seus lamentos. Há cura real aí?

Essa perspectiva encontra ressonância em um artigo intitulado “O arquétipo do médico-ferido” presente na revista Journal of Analytical Psychology de 1975.

Resumindo-o bastante, ele alega que a verdadeira cura requer uma relação de troca entre médico e paciente. Afirma: o terapeuta precisa entrar em contato com sua própria ferida a fim de ativar o curador interno do paciente. Assim, o paciente “empresta” sua doença ao terapeuta de forma a ativar o lado doente, frágil, imperfeitamente humano e perecível deste último. Só então, o curador interno presente em ambos pode atuar de forma que paciente e terapeuta sejam curados simultaneamente. Concluindo, o paciente também é um curador e vice-versa.

Em suma, como uma via de mão dupla, o mundo da cura é também o mundo da doença.


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Entre vão e vácuo

(Rogério C. Migliorini)

 

A Arte-educadora e gravurista brasileira, Fayga Ostrower, aborda o tema do equilíbrio ao tratar da criatividade e dos processos de criação. Ela diz que para o ser humano o equilíbrio interno “não é um dado fixo nem um estado ideal, e sim algo que a todo instante precisa ser reconquistado.” É, portanto, “um processo contínuo em que, cada momento de estabilidade,” seja ele interno ou externo, “é imediatamente questionado”. Assim, “viver, para nós, torna-se um incessante ter-que-se-desequilibrar a fim de alcançar algum tipo de equilíbrio dentro de si”.

A criadora estabelece, assim, juntamente com outros autores, uma correspondência direta entre os processos internos e externos relativos ao equilíbrio.

Externamente, o processo pode ser observado no número circense de equilíbrio em escada sem apoio. Nele, além de seu executante nunca parar de movimentar a escada, seu corpo oscila tanto a ponto de parecer que em alguns momentos sua queda é iminente. Afora visar o suspense da plateia, esses “balanços” deixam claro que o ponto de equilíbrio do conjunto corpo/aparelho está continuamente sendo buscado.

De forma semelhante o equilíbrio participa do andar, pois nele estabilizamo-nos sobre uma perna até ultrapassarmos o ponto máximo em que podemos ficar sobre ela. Então, perdemos a estabilidade e, a fim de evitar a queda, colocamos a perna que não apoia o peso do corpo na frente da que antes o fazia. Imediatamente retomamos a firmeza sobre este novo apoio para em seguida desabarmos outra vez. O ato contínuo adia a queda, que é assim substituída por passos. Portanto, nosso andar nada mais é que um ato constante de equilíbrio e desequilíbrio.

Esses exemplos não sugerem a impropriedade de rejeitarmos algumas de nossas facetas, já que elas também são necessárias à nossa constituição? Não seria melhor aprendermos a lidar, não só com os vãos externos a nós, mas também com o vácuo existente em nosso interior?


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Os cool também choram

Outro dia pensei no que um cara falou em um blog de pessoas cool. Elas não são cool porque querem. É como uma pessoa que não faz as coisas pra lançar moda, mas que lança. Segundo ele, não fazer esforço é uma característica das pessoas cool.

 

Eu nunca aceitei o rótulo de CDF, porque esse rótulo sugere que a pessoa se mata de estudar. Eu nunca me matei de estudar, nunca passei noites em claro, rachando, e se eu tirava notas boas, o fazia sem nenhum esforço. Ser aprovado era natural. Eu não tirava notas boas porque puxava o saco dos professores, porque isso eu jamais fiz.

 

A necessidade do esforço deve ser meio judaico-cristã. Protestante, como dizia Weber? Acho que o buraco é bem mais embaixo. Sei que algumas vezes parece que nada serve sem esforço, dor ou sofrimento. Parece que sem essas coisas, somos desonestos.

 

Por outro lado me intrigava saber que em biologia, um sistema é tanto melhor quanto menos energia consome. Então, um pássaro que voa sem esforço não consome energia. Por isso os urubus ficam horas planando nas térmicas e os albatrozes passam a vida nos ares aproveitando os ventos e voando enormes distâncias sem desperdiçar energia batendo as asas.

 

Outro dia soube de um cavalo que sobrevive na Sibéria porque faz o mínimo de movimento possível durante o inverno. Assim ele come pouco em épocas de escassez de alimento. O coala australiano dorme o dia todo pra economizar a pouca energia que as folhas de eucalipto, seu alimento, lhe dão.

 

Hibernar é uma forma de economizar energia. Como é também ter um corpo aerodinâmico e que vença com facilidade a resistência da água.

 

Portanto, não fazer esforço não significa ser vagabundo e irresponsável, ou montar na desgraça alheia. Ser econômico em termos de esforço é ser inteligente, e isso, infelizmente, talvez seja pra poucos. Os burros é que fazem esforços desnecessários, padecem, são espertalhões, desonestos, etc. Os inteligentes são aqueles pra quem as vitórias são naturais. Eles não precisam pisar em ninguém, fazer valer sua autoridade por motivos banais, tripudiar em cima dos outros, desconsiderar fulano e por aí vai. Ou seja, sensibilidade e empatia são formas de inteligência.

 

Minha amiga e meu amigo, você não é um carrapato que vive confinado ao corpo alheio, mas sim um albatroz que vive a errar sobre os mares sem fim. Quando for o caso, mande os parasitas à merda; olhe-os do alto da sua inteligência e talento. Tudo que eles fazem pra lhe ferrar, é por inveja da sua esperteza, assim como da sua capacidade de ser solidário e de se importar com os outros. Coitado de quem se compraz em lhe ver sofrer, em sugar seu sangue e em jogar sujo com você. Os carrapatos e sanguessugas são eles. Seja a pessoa cool que você é.

 

Eu adoro estar ao lado de pessoas cool, mas ninguém nos contou do pedaço em que a gente sofre. Por isso vou fazer um filme: “Os cools também choram. :-)”

Rogério C. Migliorini

 

A radionovela como proposta de Arte-terapia com deficientes visuais

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KOPELMAN, C. G. e MIGLIORINI, R. C. A radionovela como proposta de Arte-terapia com deficientes visuais.   In: FRANCISQUETTI, A. A. (Org). Arte-reabilitação: um caminho inovador na área da Arteterapia. p. 201-220. Rio de janeiro, Wak Editora, 2016 (ISBN 978-85-7854-379-2)

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