Roda de Cura/Centauros Feridos

Arte, saúde e seres híbridos: transgressões e integrações de fronteiras


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Entre vão e vácuo

(Rogério C. Migliorini)

 

A Arte-educadora e gravurista brasileira, Fayga Ostrower, aborda o tema do equilíbrio ao tratar da criatividade e dos processos de criação. Ela diz que para o ser humano o equilíbrio interno “não é um dado fixo nem um estado ideal, e sim algo que a todo instante precisa ser reconquistado.” É, portanto, “um processo contínuo em que, cada momento de estabilidade,” seja ele interno ou externo, “é imediatamente questionado”. Assim, “viver, para nós, torna-se um incessante ter-que-se-desequilibrar a fim de alcançar algum tipo de equilíbrio dentro de si”.

A criadora estabelece, assim, juntamente com outros autores, uma correspondência direta entre os processos internos e externos relativos ao equilíbrio.

Externamente, o processo pode ser observado no número circense de equilíbrio em escada sem apoio. Nele, além de seu executante nunca parar de movimentar a escada, seu corpo oscila tanto a ponto de parecer que em alguns momentos sua queda é iminente. Afora visar o suspense da plateia, esses “balanços” deixam claro que o ponto de equilíbrio do conjunto corpo/aparelho está continuamente sendo buscado.

De forma semelhante o equilíbrio participa do andar, pois nele estabilizamo-nos sobre uma perna até ultrapassarmos o ponto máximo em que podemos ficar sobre ela. Então, perdemos a estabilidade e, a fim de evitar a queda, colocamos a perna que não apoia o peso do corpo na frente da que antes o fazia. Imediatamente retomamos a firmeza sobre este novo apoio para em seguida desabarmos outra vez. O ato contínuo adia a queda, que é assim substituída por passos. Portanto, nosso andar nada mais é que um ato constante de equilíbrio e desequilíbrio.

Esses exemplos não sugerem a impropriedade de rejeitarmos algumas de nossas facetas, já que elas também são necessárias à nossa constituição? Não seria melhor aprendermos a lidar, não só com os vãos externos a nós, mas também com o vácuo existente em nosso interior?


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Os cool também choram

Outro dia pensei no que um cara falou em um blog de pessoas cool. Elas não são cool porque querem. É como uma pessoa que não faz as coisas pra lançar moda, mas que lança. Segundo ele, não fazer esforço é uma característica das pessoas cool.

 

Eu nunca aceitei o rótulo de CDF, porque esse rótulo sugere que a pessoa se mata de estudar. Eu nunca me matei de estudar, nunca passei noites em claro, rachando, e se eu tirava notas boas, o fazia sem nenhum esforço. Ser aprovado era natural. Eu não tirava notas boas porque puxava o saco dos professores, porque isso eu jamais fiz.

 

A necessidade do esforço deve ser meio judaico-cristã. Protestante, como dizia Weber? Acho que o buraco é bem mais embaixo. Sei que algumas vezes parece que nada serve sem esforço, dor ou sofrimento. Parece que sem essas coisas, somos desonestos.

 

Por outro lado me intrigava saber que em biologia, um sistema é tanto melhor quanto menos energia consome. Então, um pássaro que voa sem esforço não consome energia. Por isso os urubus ficam horas planando nas térmicas e os albatrozes passam a vida nos ares aproveitando os ventos e voando enormes distâncias sem desperdiçar energia batendo as asas.

 

Outro dia soube de um cavalo que sobrevive na Sibéria porque faz o mínimo de movimento possível durante o inverno. Assim ele come pouco em épocas de escassez de alimento. O coala australiano dorme o dia todo pra economizar a pouca energia que as folhas de eucalipto, seu alimento, lhe dão.

 

Hibernar é uma forma de economizar energia. Como é também ter um corpo aerodinâmico e que vença com facilidade a resistência da água.

 

Portanto, não fazer esforço não significa ser vagabundo e irresponsável, ou montar na desgraça alheia. Ser econômico em termos de esforço é ser inteligente, e isso, infelizmente, talvez seja pra poucos. Os burros é que fazem esforços desnecessários, padecem, são espertalhões, desonestos, etc. Os inteligentes são aqueles pra quem as vitórias são naturais. Eles não precisam pisar em ninguém, fazer valer sua autoridade por motivos banais, tripudiar em cima dos outros, desconsiderar fulano e por aí vai. Ou seja, sensibilidade e empatia são formas de inteligência.

 

Minha amiga e meu amigo, você não é um carrapato que vive confinado ao corpo alheio, mas sim um albatroz que vive a errar sobre os mares sem fim. Quando for o caso, mande os parasitas à merda; olhe-os do alto da sua inteligência e talento. Tudo que eles fazem pra lhe ferrar, é por inveja da sua esperteza, assim como da sua capacidade de ser solidário e de se importar com os outros. Coitado de quem se compraz em lhe ver sofrer, em sugar seu sangue e em jogar sujo com você. Os carrapatos e sanguessugas são eles. Seja a pessoa cool que você é.

 

Eu adoro estar ao lado de pessoas cool, mas ninguém nos contou do pedaço em que a gente sofre. Por isso vou fazer um filme: “Os cools também choram. :-)”

Rogério C. Migliorini

 

A radionovela como proposta de Arte-terapia com deficientes visuais

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KOPELMAN, C. G. e MIGLIORINI, R. C. A radionovela como proposta de Arte-terapia com deficientes visuais.   In: FRANCISQUETTI, A. A. (Org). Arte-reabilitação: um caminho inovador na área da Arteterapia. p. 201-220. Rio de janeiro, Wak Editora, 2016 (ISBN 978-85-7854-379-2)

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Haste Makes Waste

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When I saw this video, I thought about a work I performed in 2015 with an actress and friend of mine. Along its creation we discussed a lot whether we would set all its steps and exhaustively rehearse them or build a mindset where the movement would come only in response to  each other’s or the audience’s stimuli.  (Actually this was my doubt, and not my partner’s).

By thinking over this work, and about a long process of four years of movement improvisation classes with a really gifted teacher, I see that to count with the unexpected is much more akin of our daily experience than its opposite.

For instance, in the act we have here, no matter how fixed and rehearsed, to interact with an object must consider the unforseen. so that the partial control shown in its manipulation is rather a deep understanding of it,

We must know what the object can do, what kind of movements it allow us to do, how long it takes to go from a certain point to another, as for the act to work the performers have to harmonize their movements with all those things so that their bodies and the object they interact with become only one thing.

It’s also necessary to “listen” to the other, to act together. Ultimately, a good collective act requires  perception, respect, and accordingly responses. In the artistic set we talk about playing partners.

I think that in our daily lives interacting with other persons and objects demand the same.

For instance, when we walk in a footpath with other passersby even if unconsciously we recognize a pattern. We watch our “partners”, realize when they go to this direction or to the another, gauge the distance between the persons, estimate their walking speed, and so on.

Of course the unexpected can surprise us. When this happens, our time of reading the facts not always is quick enough and the consequent reaction may not be entirely adequate for us to prevent an accident. However, I think that much of these is due to a hasty and superficial observation based in things like fear, anxiety, unconfirmed impressions and misunderstandings.

The opposite behavior seems to us an unreal and icy self-control. Nevertheless, it’s fundamental to the scene, and what is even better, sometime make it look more difficult and superhuman than what it really is.

Thus, weighing things before acting, rather than saving just a theatrical act, often saves life as well.

therefore, it’s wise to breath, relax, feel, listen,  watch, analyse and think before taking an action.