CMON – Cave of Monsters / AMTRO – Aliança dos Monstros

Trespassing of Boundaries and Unification of Differences Through Art

Source: BBC World Service – The Cultural Frontline, Film, Feminism and Frankenstein

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DOR E JÚBILO

R. C. Migliorini

DOR

Certa vez, uma atriz que teve um câncer de pele falou disso em entrevista. Disse que a doença logo diagnosticada havia formado apenas uma pequena mancha na pele. Felizmente, essa pinta foi retirada sem que, nem ao menos, uma pequena cicatriz tenha ficado para contar a história.

 

Ao falar do ocorrido, a atriz ficou extremamente comovida. No princípio, sua reação me pareceu sem sentido e exagerada. Contudo, refletindo melhor sobre o assunto, conclui que o que o insignificante para mim, havia sido muito sério para ela.

 

JÚBILO

É comum pensar que uma pessoa sem uma deficiência séria, doença grave ou situação socioeconômica adversa tem a obrigação de ser feliz. Afinal, pessoas assim, podem ter muitas atividades, algumas vezes, até mais vantagens que a maioria das outras. Então, por que se queixam?

Esse discurso me parece de uma tremenda violência, pois obriga a pessoa a calar seus sentimentos. Em última instância, a faz se conformar com uma situação desconfortável, ao sugerir que é “errado” se queixar. A pessoa tem que ser sempre feliz, como as princesas e os príncipes dos contos de fadas.

Vou ilustrar esse discurso com um exemplo pessoal. Eu me lembro de que logo após minha cirurgia eu peguei um ônibus, e não sei por qual razão, discuti com o cobrador. A sua reação não foi a de me ouvir, mas sim a de dizer pra eu não descontar a minha raiva, a minha revolta, ou sei lá o quê, nele.

Fosse realmente isso e ele estaria certo, pois ninguém merece ser tratado como saco de pancadas de ninguém. Mas ele queria, ou melhor, exigia e esperava que eu, como deficiente, fosse sempre feliz e cordato. Pior, que aceitasse seu atendimento ruim. Para ele, eu teria que aturar injustiças sorrindo; aceitar ser vilipendiado com complacência e me calar ao ser tratado de forma grosseira.

Em resumo, pessoas, doentes, acamadas, idosas ou deficientes são sempre “frágeis”. Por isso, não podem sentir raiva, nem se queixar. A contrário, devem ser naturalmente boas e nunca sentir dor, tristeza, frustração e, muito menos, reagir. Se o fizerem, serão logo taxadas de revoltadas.

 

CONCLUSÃO

Portanto, há que se respeitar a dor e o sofrimento alheios, bem como a própria. Porque, até onde sei, independentemente da “cara” de cada um, todos partilhamos de uma alma, de um coração e de sentimentos muito parecidos. Não se deve, portanto, comparar dor e, muito menos, impor felicidade.


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Ao infinito…. e além!

R. C. Migliorini

Desde que fiz a cirurgia em 1992, fiz raríssimos cursos de dança. Isto me faz parecer um profissional negligente, uma vez que eu sou bailarino, coreógrafo e professor de dança. Por estar relendo um texto em que o cito, lembrei-me de um feito em 2014. Ia republicar o artigo original, no entanto, achei por bem apenas basear-me nele e escrever outro totalmente novo.

Eu falava de dançar com um corpo que adquiriu uma semiparalisia. Pois bem, como “dono” desse corpo, confesso que, ao mesmo tempo em que, pra mim, dançar é um imenso prazer, não deixa de ser frustrante.

Quando eu danço, não gosto de me confrontar com meu jeito de locomoção, uma vez que ele não se harmoniza mais com os movimentos que eu faço com o resto do corpo enquanto eu danço. Certas horas, por exemplo, eu coloco o pé em um determinado lugar, tipo muito perto do outro, simplesmente para não cair e, num ritmo que não se relaciona em absoluto com a cadência dos movimentos do braço. Nessas horas, a dança é secundária ou mesmo inexistente, pois a coordenação dos movimentos é quebrada por inteiro.

Tampouco é agradável tentar fazer um gesto preciso com o braço afetado, e ele meio que continuar, porque eu não consigo pará-lo. Por exemplo, ao tentar tocar a testa de alguém, eu posso perder o controle do braço e da mão e aproximá-los com muita força e rapidez da cabeça da outra pessoa. Assim, um toque que era pra ser suave pode virar um tapaço.

Porém, estar disposto a dançar, movimentar o braço semiparalisado e sentir minha maneira de andar não deixa de ser um progresso, já que meses antes eu não me disporia a fazer isso simplesmente porque essas coisas iriam aparecer.

O resultado dessas contradições é que há dias em que sinto prazer ao dançar e dias em que me estresso. Então, no isolamento da minha casa, eu busco o meu centro. Faço isso recorrendo à trabalhos somáticos, yoga, relaxamento, controle da respiração e, sobretudo, muita intuição. Mas diga-se de passagem, isso também pode ser bem desconfortável porque, querendo ou não, mente e corpo brigam dentro de mim.

No entanto, essa dinâmica me mostra que tudo bem se sentir frustrado, desanimado, ansioso… Faz parte. Até porque são esses sentimentos que dão início aos processos que nos levam a avançar. Talvez bem mais devagar do que gostaríamos, mas sempre.

Fev/2018


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The Ugly Duckling Version DanceAbility

 

R. C. Migliorini

I am taking a DanceAbility‘s workshop held by Núcleo Dança Aberta. Physical diversity among persons, and how they can relate to each other despite it, or rather for that very reason, is the utmost concern of this workshop.

Although disability may be the quintessence of physical diversity, this work does not focus on that. It sees disability as something that embodies diversity but does not forget that people, whether disabled or not, are always unique. Therefore, for me, the most important trait of DanceAbility is the recognition that physical diversity acts upon movement so that it becomes unique as well.

It is interesting to note that even if body movement is DanceAbility’s prefered media, its classes start with a circle where people talk.

In one of these circles, it came about the issue of perception of persons with a severe “visual disability”. Would not it be good if the person with this eye condition decided to dance/move without glasses? When this issue came about, I did not feel like saying anything. However, now I do.

I have a very severe nearsightedness. It stabilized around – 22 diopters, which requires strong eyeglasses. I have worn them uninterruptedly from when I was four to my pre-teen years. During that time, they would get stronger every year, and when I was about ten, I tried to swap them for contact lenses. Nevertheless, I was not able to fit them.

It is normal to think that this happens only due to physical problems. However, in my case, it did because of a psychological impact.

Now, in general, spectacles stand for something negative, mainly when they are very strong and are in the face of a shy boy whose marks at school are excellent. This way, they are also a cause of bullying.

Nevertheless, they are also a shield or a mask of the sort. What do I mean?

I have very beautiful eyes (for Brazilian standards) that for years had been hidden behind thick lenses. All of a sudden, by clearing myself of my shield or my mask, I started to expose my eyes (and myself), and I simply was not prepared for that.

This way glasses, simultaneously correct a severe degree of myopia and protect one from the gaze of others. Then, when I got rid of my glasses, I began both, to call attention upon me because of the beauty of my eyes, and above all, to see the other persons looking at me. Yet, as I was still fragile inside, I could not bear this at all.

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Everyone would say this meant I was mad and it is great to be the school “nerd” one day and the handsome guy with the beautiful eyes the next. Ultimately, it is like being the ugly duckling. However, now I know that a huge inner shift is needed for one to transmute from an ugly duckling into the most beautiful swan of all. Unfortunately, the fairy tale does not tell us that, and as in my case the inner change did not happen, the outer one did not either.

Even so, to me, self-exposure was part of my plans, and the fact that I became a performing artist proves it.

Still, the stage brings on this sense of security, as in it the artist is relatively unaware of the audience’s gaze. I mean, its strong lights and architecture detach it from the audience. While it sees what happens over there, it rarely steps in. Therefore, it was comfortable for me to attract the other’s gaze from up there, as I still could not see all those persons looking me back.

Soon after graduating, I acquired a physical disability. In a way, it was like being turned into an ugly duckling again. As a result, if because of my glasses I had a serious problem with my self-image, a feeling that I thought I had overcome altogether, the disability worsened it so that I still do. Sometimes, I am very ashamed and crave for a shelter.

This flight from exposure though may generate stuttering speeches or hesitating actions, for instance, and consequently, misimpressions. In this case, it would be noxious. The artist practice counteracts it by inserting the person in this showplace, in a platform from where one to better play a role cannot hide. (It has just occurred to me that one of the artist’s role is to show oneself in the lighted arena while the audience comfortably sits in the dark).

Since DanceAbility welcomes all kinds of physicalities and their abilities, it also welcomes self-expression in its infinite ways. It enables self-exposure when it looks at different bodies and accepts them just as they are. It sees their beauty and substance. In other words, it deals with humans rather than with super-humans.

Then, together with other practices, it is metaphorically helping me to get rid of my glasses again.

P.S. Many people want to keep their “glasses” on. No problems. Sometimes, it is also positive. Moreover, DanceAbility welcomes them as well. Nevertheless, for my personal quest to keep covered is not an option, so I am well aware that it is my choice, and nobody else’s. So, do not take what I said as a rule. Perhaps DanceAbility’s golden rule is that everyone is free to make one’s own choices.

 


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O poder do belo

(R. C. Migliorini)

Um post do Face book dizia que, certa vez, um famoso violinista tocou incógnito durante quarenta e cinco minutos no metrô de Washington. Nesse tempo quase ninguém parou para ouvi-lo. Somente as crianças deram sinais de que o fariam, caso não estivessem acompanhadas por pais apressados.

Nada me parece mais natural, já que, ao contrário do que ocorre com os adultos, na maioria das sociedades humanas, são elas que dispõem de tempo. Por sua vez são os adultos que se dedicam, não só à própria subsistência, como também à das crianças.

Ilustro meu ponto de vista com um filme a que assisti nesse final de semana. Ele era sobre a vida em uma tribo de Papua – Nova Guiné. Nele mencionaram muitas pessoas, entre elas um garoto e seu pai.

Ao garoto cabia a tarefa de cuidar dos poucos porcos da família. Como essa tarefa não exigia tanto o seu tempo, ele podia brincar com as crianças que faziam o mesmo, caçar borboletas, se entreter com vários insetos, cultivar uma mini horta e até tirar uma soneca durante o trabalho.

Local people participating at the mumu, Lakwanda, Tari, PNG.

Local people participating at the mumu, Lakwanda, Tari, PNG.

Já seu pai caminhava diariamente para uma torre de observação de onde vigiava a aproximação de inimigos. Protegia, assim, o território da aldeia e, durante o tempo lá encarapitado, fazia outras atividades que não o distraiam muito nem exigiam que ele saísse de seu posto.

Como em algumas raras ocasiões as batalhas ceifavam a vida de alguém, os homens se permitiam repeti-las em intervalos regulares, sem sequer pensar em fazer um tratado de paz. Contudo, todas terminavam antes do anoitecer, porque mesmo o guerreiro mais feroz temia os fantasmas que vagavam durante as horas de escuridão.

É interessante notar, porém, que estivesse seu povoado em em guerra ou não, o pai do menino nunca deixava de olhar as belezas ao redor. A que preferia era ver a revoada das andorinhas se recolhendo para dormir.

Talvez a atribulação máxima de vida de adulto fosse guerrear. Olhar para essas coisas, em contraposição, poderia ser o seu modo de relaxar. Parece que os seres humanos não são tão diferentes assim, vivam em uma tribo ou em uma grande cidade. Nós também transformamos nossas batalhas em entretenimento e, do mesmo modo, belas vistas e músicas nos relaxam mesmo que não tenhamos tempo para nos deter diante delas.


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O Patinho Feio versão DanceAbility

 

R. C. Migliorini

Eu estou fazendo uma oficina de DanceAbility com o pessoal do Núcleo Dança Aberta. Esta oficina pensa na diversidade corporal dos indivíduos e em como eles podem se relacionar apesar da diversidade; ou exatamente por sua causa.

Como a deficiência potencializa a diversidade ela parece ser o foco do trabalho. No entanto, não é bem assim. Ela é, sim, muito bem acolhida, porém o foco do trabalho é a diversidade, sendo que ela já está presente entre uma pessoa e outra, não importando se alguma delas tem uma deficiência ou não.

O fundamental no DanceAbility, portanto, é o reconhecimento de que a diversidade se reflete no movimento, sendo que este é o meio de comunicação preferencial que adota. Mesmo assim, em vez de ser introduzido no começo das aulas, ele o é só após uma roda de conversa.

Em uma delas surgiu o assunto da diferença perceptiva de se dançar com ou sem óculos quando a pessoa que fizer isso tiver um alto grau de “deficiência visual”. Ela deveria ou não dançar sem óculos? Esse tópico gerou uma grande discussão, mas naquele momento, eu não quis me manifestar. Porém, agora desejo fazê-lo. Então lá vai:

Eu tenho o que chamam de alta miopia. A minha estacionou com mais de 20 graus. Eu uso óculos ininterruptamente desde que me conheço por gente, dos quatro anos à pré-adolescência. Com uns dez anos eu tentei substitui-los por lentes de contato. Mas eu não me adaptei a elas.

Costuma-se pensar que a inadaptação às lentes acontece por questões apenas físicas, mas a minha foi devido a um impacto psicológico.

Ela se deu porque eu tenho olhos muito bonitos, do tipo que chamam a atenção. Entretanto, durante anos eles ficaram escondidos e o que aparecia eram os grossos óculos. Ora, em geral óculos simbolizam algo negativo, ainda mais se forem muito fortes e estiverem no rosto de um garoto tímido que tira notas altas na escola. Então, eles eram, além de tudo, pretexto de “bullying”.

Por outro lado, eles, assim como a alta miopia ou qualquer outra deficiência visual, também protegem o indivíduo do olhar alheio, pois a pessoa não o vê. Então, quando tirei os óculos, passei, não só a chamar a atenção, mas, sobretudo, a ver o olhar dos outros sobre mim. Contudo, como por dentro eu continuava fragilizado, eu fui incapaz de sustentar o olhar alheio.

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Todos diriam que eu estava pirado e que é muito legal ser o “nerd” da escola até um dia e virar o galã dos belos olhos azulaços no dia seguinte. Enfim, ser o personagem principal de uma espécie de história do Patinho Feio. Porém, agora eu vejo que é necessária uma enorme mudança interna pra se transformar do Patinho Feio num lindo cisne real. Infelizmente, essa parte da história a lenda não conta. E como no meu caso essa mudança interna não aconteceu, a externa tampouco.

Com óculos ou sem óculos, todavia, me expor estava nos meus planos, tanto que eu me tornei um artista de palco.

Contudo, como vim a descobrir, o palco ainda perpetua essa sensação de segurança, pois, apesar de ser um espaço de exposição, mantém o artista relativamente afastado dos olhares do outro devido, por exemplo, às fortes luzes ou à arquitetura que torna o palco um espaço separado do público e, geralmente, inacessível a ele. Assim, de lá, eu achava confortável buscar o olhar do outro, pois eu seguia sem ver o outro me vendo.

Enquanto eu lidava com isso, pois nessa carreira também existem situações na qual o bailarino dança cara-a-cara com o público — o que relativiza tudo que eu disse acima, quis o destino que eu adquirisse uma deficiência física visível. Em um certo sentido foi como voltar a ser o Patinho Feio. Tinha e voltei a ter uma grande questão com a minha auto imagem. Em alguns momentos, tenho, por exemplo, um grande sentimento de vergonha, que eu pensei que já houvesse superado.

Sinto também que essa fuga da exposição, do olhar do outro, pode ser nociva se aparecer numa fala hesitante ou em ações inseguras, por exemplo, e acabar gerando uma série de impressões erradas.

A prática artística traz a pessoa para um espaço de exposição, para uma arena onde ela tem que atuar e enquanto atua ela não pode se esconder. (Acabou de me ocorrer que um dos papéis do artista é, justamente, se expor na arena iluminada para o público poder ficar confortavelmente oculto na penumbra).

O método de DanceAbility, por conta do seu acolhimento do corpo, seja qual for, e da habilidade que esse corpo tiver, simplesmente dá licença para que os infinitos caminhos da auto expressão dos, igualmente, infinitos corpos, venha à tona. Possibilita a exposição por permitir que esse corpo seja como é. Entende que ele é sempre belo e cheio de significados. Em outras palavras, lida com o ser humano, e não com o super-humano que não existe na vida real.

Para, unindo-se e a outras práticas, me ajudar a tirar os óculos outra vez.

P.S. Ficar de “óculos” ou oculto, pode ser ótimo pra muitas pessoas e o DanceAbility acolhe isso também. Porém, faço questão de assumir o meu lado pessoal aqui. Pra mim não é.

 


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De deuses e religiões

R. C. Migliorini

Esta semana uma pessoa comentou que um texto que eu escrevi para este blog estava bom até eu colocar a palavra deus nele. Esta crítica demonstra que a palavra deus é polêmica nos dias de hoje. Por isso, vai aqui uma explicação mais detalhada.

Eu optei por usar a palavra deus até pela controvérsia que a cerca. Talvez, minha intenção tenha sido a de desmistificar deuses e religiões, um intento aparentemente incoerente já que as duas coisas habitam o campo da fé. Porém, crença e fé não são o eixo dessa discussão, como também não o foram no texto em questão.

Usei a palavra deus e falei de religião porque o fenômeno religioso ocupa as culturas humanas desde tempos imemoriais e, no mínimo, é importante o suficiente para não ser negligenciado. Nesse sentido, para alguns estudiosos a religiosidade nasce no instante em que o ser humano passa a enterrar seus mortos, pois esse cuidado com o corpo morto sugere uma vida pós-morte.

Tal preocupação não existe entre os animais. Outro dia vi um filme em que uma fêmea de babuíno lida com a morte de seu filhote. Ela carrega o corpo inerte durante dias em um comportamento inexplicável à ciência. Porém, após alguns dias de exibição desse comportamento aparentado ao “luto” humano, ela simplesmente deixa cair o corpo do filhote no chão. Dessa forma encerra seu “luto” e segue com sua vida normal.

Note que, mais do que abandonar o corpo do filhote, ela simplesmente o soltou como largaria uma casca de banana. Não o depositou em nenhum lugar especial nem tampouco o arrumou em alguma posição específica.

O ser humano quase nunca age ou agiu assim. Querendo ou não sempre tratamos o corpo humano com alguma deferência. Mesmo estudantes de medicina têm que demonstrar (não sei se oficialmente por meio de um juramento) uma atitude “respeitosa” diante de um cadáver humano.

Cerimônias mortuárias as mais diversas existem desde tempos imemoriais em todas as culturas e religiões. Invariavelmente rituais de uma determinada cultura chocam pessoas de outras. A que mais me choca é um antigo ritual indonésio em que o morto era colocado em um vazo, e o chorume da putrefação do corpo, recolhido e misturado à água do arroz que alimentava seus parentes. Contudo, por mais estranhos que sejam, todos esses rituais mortuários, refletem uma atitude religiosa. Por sua vez, comportamentos rituais e religiosos dizem muito do ser humano.

Em nossa cultura atual, a morte ocorre longe do olhar do público e dos parentes do falecido. O mesmo se dá com o ato de se cremar um cadáver, por exemplo, ou mesmo de enterrá-lo em cemitérios e não no quintal da casa dos parentes vivos. A morte deve ficar afastada de nossos pensamentos e preocupações. Ela tornou-se pornográfica. E falar de deuses e religiões é quase tão pornográfico quanto.