CMON – Cave of Monsters / AMTRO – Aliança dos Monstros

Trespassing of Boundaries and Unification of Differences Through Art


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Ao infinito…. e além!

R. C. Migliorini

Desde que fiz a cirurgia em 1992, fiz raríssimos cursos de dança. Isto me faz parecer um profissional negligente, uma vez que eu sou bailarino, coreógrafo e professor de dança. Por estar relendo um texto em que o cito, lembrei-me de um feito em 2014. Ia republicar o artigo original, no entanto, achei por bem apenas basear-me nele e escrever outro totalmente novo.

Eu falava de dançar com um corpo que adquiriu uma semiparalisia. Pois bem, como “dono” desse corpo, confesso que, ao mesmo tempo em que, pra mim, dançar é um imenso prazer, não deixa de ser frustrante.

Quando eu danço, não gosto de me confrontar com meu jeito de locomoção, uma vez que ele não se harmoniza mais com os movimentos que eu faço com o resto do corpo enquanto eu danço. Certas horas, por exemplo, eu coloco o pé em um determinado lugar, tipo muito perto do outro, simplesmente para não cair e, num ritmo que não se relaciona em absoluto com a cadência dos movimentos do braço. Nessas horas, a dança é secundária ou mesmo inexistente, pois a coordenação dos movimentos é quebrada por inteiro.

Tampouco é agradável tentar fazer um gesto preciso com o braço afetado, e ele meio que continuar, porque eu não consigo pará-lo. Por exemplo, ao tentar tocar a testa de alguém, eu posso perder o controle do braço e da mão e aproximá-los com muita força e rapidez da cabeça da outra pessoa. Assim, um toque que era pra ser suave pode virar um tapaço.

Porém, estar disposto a dançar, movimentar o braço semiparalisado e sentir minha maneira de andar não deixa de ser um progresso, já que meses antes eu não me disporia a fazer isso simplesmente porque essas coisas iriam aparecer.

O resultado dessas contradições é que há dias em que sinto prazer ao dançar e dias em que me estresso. Então, no isolamento da minha casa, eu busco o meu centro. Faço isso recorrendo à trabalhos somáticos, yoga, relaxamento, controle da respiração e, sobretudo, muita intuição. Mas diga-se de passagem, isso também pode ser bem desconfortável porque, querendo ou não, mente e corpo brigam dentro de mim.

No entanto, essa dinâmica me mostra que tudo bem se sentir frustrado, desanimado, ansioso… Faz parte. Até porque são esses sentimentos que dão início aos processos que nos levam a avançar. Talvez bem mais devagar do que gostaríamos, mas sempre.

Fev/2018

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TENSIONAR NÃO É PRECISO

texto escrito em 2013 para o site fãs da psicanálise. Revisado e republicado em 2017

R. C. Migliorini

Este é o primeiro texto do ano. Contudo, ele não é tão próprio para esta época, pois nele apenas menciono que coisas maravilhosas aconteceram em 2013. Embora elas tenham tido continuidade neste início de 2014 que, portanto, já começou bem, algumas, muito necessárias, ainda não aconteceram. Deste modo, por mais que eu tente, relaxar é bem difícil.

Falo aqui do relaxamento porque já faz algum tempo que eu estou com a palavra na mente. Conquanto eu já tenha escrito sobre o assunto, por ele me parecer bem importante e ainda não ter sido esgotado, resolvi prosseguir com ele.

Apesar do meu interesse no tema ser bastante atual, pode-se dizer que sua semente foi plantada há muito tempo, pois quando eu era pequeno fiz ludo-terapia e uma das técnicas usadas ali era o relaxamento. Foi a partir daí que eu comecei a gostar da coisa, até porque naquela época relaxar fez muito bem a mim. Depois, ao longo da vida eu voltei a me deparar com o procedimento inúmeras vezes, e voltei a fazê-lo na prática somática que adotei, já que, invariavelmente, todas as atividades corporais que agregam mente e corpo usam bastante o relaxamento.

Assim, venho me perguntando sobre a sua função em contextos de cura.

Especificamente sobre terapias somáticas, Martha Eddy em “A brief history of somatic practices and dance” diz que nessas práticas as pessoas dedicam-se a “ouvir o corpo”, em geral começando com o relaxamento consciente no chão ou em mesa de massagem. A partir deste estado de redução de gravidade são orientadas a prestar atenção nas sensações corporais que brotam do seu interior e a se movimentar delicada e lentamente para adquirir uma consciência mais profunda do “self” que se move.

Aí estão algumas pistas: relaxar significa aquietar corpo e mente para ouvi-los e ouvir-se a si mesmo. Em geral, isso é algo que nossa cultura e nosso estilo de vida nos impedem de fazer. Se a cisão conosco mesmo começa assim, relaxar, embora pareça o extremo da passividade, é uma forma ativa de começar a restaurar a nossa integridade.

Sendo assim: relaxar, é preciso.


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Um acesso aos afetos

(Rogério C Migliorini)

 

Há alguns anos, uma colega e eu demos aulas para educadores da extinta FEBEM. Eles trabalhavam com os menores que residiam nas casas-abrigo da instituição e nelas atuavam como uma espécie de pais substitutos.

Nosso objetivo não era o de ensinar aos educadores nada que fossem utilizar com as crianças abrigadas nas casas,. O nosso trabalho visava o bem-estar dos educadores em si, já que acreditávamos que essa mudança de foco influenciaria de modo positivo a relação deles com as crianças e adolescentes assistidas por eles.

Lembro-me de uma das minhas aulas que se apoiou no conceito de objeto transicional, na teoria do apego e em estudos sobre o amor em filhotes de macacos Rhesus. Essa base já havia me levado a realizar a montagem cênica “Dorme, dorme, Frankenstein” e voltou à tona recentemente no meu livro Curadores ferido e outros frankensteins: quinze apostas nos opostos.

Também lembro-me de um post recente em que mencionado experimentos em psicologia com cães, ratos e macacos, sem deixar de nele fazer referências a Skinner e Pavlov.

E finalmente, tenho verdadeira paixão por etologia, o estudo do comportamento animal.

Mas enfocando o que nos interessa, na sala havia inúmeras bolas grandes de ginástica. Em pares com uma só bola, os educadores precisavam caminhar até determinado ponto rolando pelo chão a bola de um para o outro. Entretanto, eles tinham que fazer tudo isso contando uma história sem palavras. Por exemplo: poderiam impulsionar a bola com suavidade ou com violência, e recebê-la com delicadeza ou com ares de pouco caso.

Nesse percurso, mesmo que nada tenha sido dito, o objetivo era que eles usassem a bola como um objeto intermediário, transferindo para o objeto seus sentimentos de afeto, raiva, hesitação, e assim por diante. Esse sentimento seria expresso no movimento inicial da ação corporal de passar e receber a bola. Assim, sem que eu tampouco falasse nada nesse sentido, o movimento expressaria algo concreto.

Antes de encerrar a aula pedi que fizessem uma improvisação coletiva, quando deram muitos sentidos à bola e a aos seus movimentos.

Como havíamos previsto, os educadores se ouviram e por terem se sentido gratificados e valorizados por uma atitude que, em última instância, favoreceu essa autoescuta, passaram a ouvir melhor seus jovens companheiros de jornada.


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Narrativas Visuais de Cotidianos Banais

NARRATIVAS VISUAIS DE COTIDIANOS BANAIS é um projeto idealizado pela artista Estela Lapponi contemplado pelo edital PROAC de Artes Integradas da Secretaria de Estado da Cultura do Governo de São Paulo.
A performance que entra em cartaz no dia 27 de outubro no Palacete Carmelita tem como inspiração inicial as pinturas de Edward Hopper.
A encenação é construída através da técnica da improvisação ou composição em tempo real pelos performeros Estela Lapponi e Roger Migliorini.
A proposta deste trabalho é a de realizar uma ação diferente de modelo-vivo e proporcionar ao público participante a experiência da criação.
Em Narrativas Visuais de Cotidianos Banais o público não só contempla como também é convidado a desenhar e praticar a escrita criativa a partir de imagens pausadas realizadas pelos performeros, propondo a criação dentro e fora da cena.
Em uma determinada sala de um casarão do séc XX estão suspensos alguns adereços que apontam potências para criação. São promessas que podem não se cumprir. Uma cama no centro, uma mulher e um homem criam relações, composições em tempo real.
A história é criada pelo espectador/participante através da contemplação, do desenho e da escrita.
O projeto será finalizado com uma exposição dos desenhos feitos pelos participantes no Palacete Carmelita.
A produção do projeto fornecerá material básico para o participante que quiser experimentar a escrita criativa ou o desenho, os desenhistas que já possuem a prática devem levar o seu próprio material.

SINOPSE:
Uma mulher, um homem, um lugar, objetos, móveis, memórias, histórias suas e nossas.
Narrativas que são construídas através do jogo de compor em tempo real.Sem previsão do que pode acontecer, apenas potências do estar em relação.
O movimento, a pausa, a suspensão e o dissolvimento.
Metonímias visuais que são criadas no momento e que podem ser eternizadas no traço, na escrita e no que mais puder surgir.
Um mote para outras criações, desdobramentos.
Narrativas Visuais de cotidianos banais é uma performance para ver e desenhar.

Ficha técnica:
Performeros: Estela Lapponi e Roger Migliorini
Microcontista: Daniel Viana
Preparação Corporal: Letícia Sekito (Anatomia Experiencial) e Neca Zarvos (Danceability método de improvisação)
Diagramação Visual: Ila Girotto
Desenhos do cartaz: Neca Zarvos
Fotografia: Lucas Czepaniki
Idealização e proposição: Estela Lapponi
Realização e Produção: Casa de Zuleika e Palacete Carmelita

SERVIÇO:
ESTREIA dia 27/10
NARRATIVAS VISUAIS DE COTIDIANOS BANAIS – performance
TEMPORADA -TODA 3F e 4F até dia 23/12
HORÁRIO: 20h
LOCAL: Palacete Carmelita – Rua Dom Francisco de Sousa, 165 (próx. ao metro Luz)
INGRESSOS – R$20,00 E R$10,00 (meia entrada para estudantes, idosos e pesssoas com deficiência)
Vendas online: https://www.sympla.com.br/narrativas-visuais-de-cotidianos-banais-performance-para-ver-e-desenhar__47173
**LOCAL SEM ACESSIBILIDADE**