Roda de Cura/Centauros Feridos

Arte, saúde e seres híbridos: transgressões e integrações de fronteiras


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Cura: uma via de mão dupla

R. C. Migliorini

Em dado momento eu resolvi participar de um ritual do Daime. Nele há a ingestão de um chá considerado alucinógeno por alguns. Confesso que eu estava temeroso, porém, mais por causa da cirurgia neurológica a qual me submeti, do que pela possibilidade de eu estar ingerindo uma droga que não fosse aspirina. Eu não sabia como meu cérebro iria se comportar. E se eu entrasse em uma viagem sem volta?

Sabendo disso, o mestre que conduziria o ritual, em vez de me impedir de nele participar, disse que faríamos o seguinte: eu tomaria o chá em pequenas doses e, conforme a minha reação, ele as aumentaria ou não, até chegar à dosagem comum a todos os participantes. Assim fizemos, e tudo transcorreu de modo absolutamente tranquilo.

Refletindo sobre tudo, conclui que se eu havia sido corajoso, o mestre também o fora, pois se prontificou a mergulhar em uma região obscura para nós dois. Também me assegurou que estaria ao meu lado durante todo o processo e que me protegeria se preciso fosse. Essa afirmação, acrescida da sua experiência e tranquilidade, foi suficiente para eu sentir confiança e encarar a aventura. Portanto, mais do que as certezas que um mestre deveria ter, sua atitude dizia que eu podia esperar companheirismo.

Extrapolando para o contexto terapêutico, eu diria que o terapeuta que permanecer inflexível no seu papel de agente ou, em outras palavras, que não tiver dúvidas de que sabe mais sobre o paciente que o próprio, corre o risco de não ouvi-lo. Então, trata-o de cima para baixo e não se dispõe a encarar o desconhecido com ele, nem a sentir seu medo ou a escutar seus lamentos. Há cura real aí?

Essa perspectiva encontra ressonância em um artigo intitulado “O arquétipo do médico-ferido” presente na revista Journal of Analytical Psychology de 1975.

Resumindo-o bastante, ele alega que a verdadeira cura requer uma relação de troca entre médico e paciente. Afirma: o terapeuta precisa entrar em contato com sua própria ferida a fim de ativar o curador interno do paciente. Assim, o paciente “empresta” sua doença ao terapeuta de forma a ativar o lado doente, frágil, imperfeitamente humano e perecível deste último. Só então, o curador interno presente em ambos pode atuar de forma que paciente e terapeuta sejam curados simultaneamente. Concluindo, o paciente também é um curador e vice-versa.

Em suma, como uma via de mão dupla, o mundo da cura é também o mundo da doença.

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A radionovela como proposta de Arte-terapia com deficientes visuais

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KOPELMAN, C. G. e MIGLIORINI, R. C. A radionovela como proposta de Arte-terapia com deficientes visuais.   In: FRANCISQUETTI, A. A. (Org). Arte-reabilitação: um caminho inovador na área da Arteterapia. p. 201-220. Rio de janeiro, Wak Editora, 2016 (ISBN 978-85-7854-379-2)

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Placa adaptada devolve autonomia a artista com deficiência motora

Dispositivo foi desenvolvido por equipe multiprofissional da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto

Antes de ter acesso ao dispositivo, Joyce utilizava somente os dentes para segurar pincéis e digitar, o que causava dores e desgaste de sua arcada – Foto: Divulgação/Forp

Devido a uma doença neurológica, a artista plástica Elizandra Joyce Bueno tem espasmos musculares por todo o corpo. Ela nasceu com distonia generalizada congênita, um distúrbio que provoca contrações involuntárias e que poderia tê-la impedido de continuar pintando. Mas Joyce, como prefere ser chamada, conta com a ajuda de um dispositivo especial que a auxilia nos movimentos com a boca, sem prejudicar seus dentes e sua mordida.

Assistida por uma equipe multiprofissional da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto (Forp) da USP, a artista usa uma placa miorrelaxante de acrílico adaptada. Usada por pacientes com bruxismo e dores faciais, a ferramenta foi personalizada para suas necessidades. Esses profissionais – cirurgião-dentista, médico, fisioterapeuta, protético e engenheiro mecânico – são especialistas do Centro de Formação de Recursos Humanos Especializados no Atendimento Odontológico a Pacientes Especiais (Caope) da Forp.

Placa adaptada apresenta dispositivo para digitação e pintura – Foto: Divulgação/Forp

A placa foi moldada individualmente para se adaptar aos dentes e à mordida da paciente, evitando que seus dentes sofram apertamento, explica a professora Andiara De Rossi, do Departamento de Clínica Infantil da Forp e integrante do Caope.

Os especialistas providenciaram uma cavidade de encaixe na arcada dentária superior da placa, com dispositivos de madeira que facilitam o encaixe dos pincéis e do lápis que a artista utiliza para digitar no teclado do computador. Segundo Andiara, uma alternativa de baixo custo, fácil adaptação e confecção. “Além de cuidados com a saúde bucal, nossa equipe apresentou um olhar voltado para as demais necessidades dos pacientes portadores de deficiência, que no Brasil encontram pouco suporte e apoio especializado”, afirma.

Detalhe da placa miorrelaxante – Foto: Divulgação/Forp

“A Joyce começou a pintar aos 13 anos de idade e usava os dentes para segurar pincéis”, lembra Ondina Bueno, mãe da artista. Com o tempo, começou a sentir dores e seus dentes amolecerem. Segundo a professora, a essa altura a artista tinha desenvolvido Disfunção Temporomandibular (DTM), overjet acentuado (dentes incisivos inclinados e projetados para frente), diastemas (espaço extra entre os dentes), mobilidade e desgastes dos incisivos superiores (dentes superiores frontais).

Joyce começou a pintar aos 13 anos de idade – Foto: Divulgação/Forp

Para as dores na região da cabeça, pescoço e articulação temporomandibular, a equipe da Forp investiu em fisioterapia e acupuntura. E, a cada seis meses, Joyce é submetida a aplicações de toxina botulínica, que diminui as contrações musculares em outras partes do corpo, como braços e pernas.

Uma das obras de Joyce – Foto: Arquivo pessoal

“Hoje, ela tem acesso ao computador”, conta satisfeita dona Ondina. A inclusão digital da paciente, com acesso às redes sociais, é importante. E esse dispositivo garante acesso digital a pacientes portadores de tetraplegia ou deficiências que não permitem o uso dos dedos das mãos ou pés, por meio de adaptações feitas de acordo com a necessidade de cada um.

Pessoas com deficiências motoras, como Joyce, encontram opções como os computadores por comando de voz, língua e movimentos dos olhos. Mas são alternativas de alto custo e que muitas vezes não estão disponíveis no mercado brasileiro. Para Andiara, “essa é a vantagem da placa de acrílico com encaixe, além de promover alívio das dores, proporciona inclusão social e digital, devolvendo autonomia, independência e qualidade de vida”.

Integram a equipe que assiste Joyce os professores Aldevina Campos de Freitas, Fabrício Kitazono de Carvalho, Raquel Assed Bezerra da Silva, Kranya Diaz Serrado, Alexandra Mussolino de Queiroz e Andiara De Rossi, a cirurgiã-dentista Carolina Paes Torres, o técnico José Carlos Ferreira Jr. e as alunas Késsia Suênia Guimarães e Michela Camilo.

Caope

Fachada da Clínica de Pacientes Especiais – Foto: Divulgação/FORP

O Centro de Formação de Recursos Humanos Especializados no Atendimento Odontológico a Pacientes Especiais, da Forp, atende de forma multidisciplinar pacientes especiais de todas as idades. Oferece serviços à comunidade abrangendo procedimentos educativos e preventivos, como orientação de higiene bucal; dentística restauradora; periodontia; tratamento endodôntico; extrações dentais; aparelhos ortodônticos; procedimentos cirúrgicos especiais; entre outros.

Mais informações: e-mail andiara@usp.br

Por Giovanna Grepi

Vídeo de Rogerio Migliorini

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Fico impressionado por este tipo de vídeo, porque mostra como o pé humano é capaz de desenvolver habilidades “manuais” de coordenação finíssima. Não se trata de um pé especial, sobrenatural ou diferente do meu, e nem foi super treinado por uma técnica científica de altíssima complexidade, mas pelo uso do dia-a-dia. Simples assim!

This kind of video strikes me because it shows how humans are able to develop amazing skills out of nothing. It’s not talking about special persons, supernatural beings, or x-men. Not even about an skill that was trained trough a highly scientific and complex technique. It shows an ordinary skill that was developed though the ordinary use of our plain body. It shows how we are powerful with what we already have. Just that!

Via Reinaldo César Branco

Eve Esler: Suddenly, my body, and Os Monólogos da Vagina em São Paulo

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Eve Ensler is a playwright and activist and the founder of V-Day, a global movement to end violence against women and girls. In Brazil, her most popular play was “The Vagina Monologue”, here the subject of a Brazilian TV show from 2012.