Roda de Cura/Centauros Feridos

Arte, saúde e seres híbridos: transgressões e integrações de fronteiras


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The Ugly Duckling Version DanceAbility

 

R. C. Migliorini

I am taking a DanceAbility ‘ s  workshop held by Núcleo Dança Aberta. Physical diversity among persons and how they can relate to each other despite it, or rather for that very reason, is the utmost concern of this workshop.

Although disability may be the quintessence of physical diversity, this work does not focus on that. It sees disability as something that embodies diversity but does forget that the later already exists from one person to the other whether disabled or not.

Therefore, the most important trait of DanceAbility is the recognition that physical diversity acts upon movement so that it becomes unique as well. Even if the movement is DanceAbility’s prefered media, the classes start with a circle where people talk. 

In one of these circles, it came about the issue of perception of persons with a severe “visual disability”. Would not it be good if the person with this eye condition decided to dance/move without glasses? When this issue came about I did not feel like saying anything about it. However, now I do.

I have a very severe nearsightedness. It stabilized around – 22 diopters, which requires strong eyeglasses. I have worn them uninterruptedly from when I was four to my pre-teen years. During that time they would get stronger every year, and when I was about ten, I tried to swap them for contact lenses. Nevertheless, I was not able to fit them.

It is normal to think that this happens only due to physical problems. However, in my case, it did because of a psychological impact.

Now, in general, spectacles stand for something bad, mainly when they are very strong and are in the face of a shy boy whose marks at school are excellent. This way, on the one hand, they were also a cause of bullying.

On the other hand, though, they were a shield or a mask of the sort. What do I mean?

I have very beautiful eyes (for Brazilian standards) that had been hidden for years behind thick lenses. All of a sudden, by clearing myself of my shield or my mask, I started to expose my eyes (and myself), and I simply was not prepared for that.

This way glasses, as well as a severe degree of myopia, protect one from the gaze of others. Then, when I got rid of my glasses, I began both, to call attention upon me because of the beauty of my eyes, and above all, to see the other persons looking at me. Yet, as I was still fragile inside, I could not bear this at all.

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Everyone would say this meant I was mad and it is great to be the school “nerd” one day and the handsome guy with the beautiful eyes the next. Ultimately, it is like being the ugly duckling. However, now I know that a huge inner shift is needed for one to transmute from an ugly duckling into the most beautiful swan of all. Unfortunately, the fairy tale does not tell us that, and as in my case the inner change did not happen, the outer one did not either.

Even so, to me, self-exposure was part of my plans, and the fact that I became a performing artist proves it.

Still, the stage brings on this sense of security, as in it the artist is relatively unaware of the audience’s  gaze. I mean, its strong lights and architecture detach it from the audience because it is an arena rarely shared with it. While it sees what happens over there, it rarely steps in. Therefore, it was comfortable for me to attract the other’s gaze from up there, as I still could not see them looking me back.

Soon after graduating, I acquired a physical disability. In a way, it was like being turned into an ugly duckling again. As a result, if because of my glasses I had a serious problem with my self-image, a feeling that I thought I had overcome altogether, the disability worsened it so that I still do. Sometimes, I am very ashamed and crave for a shelter.

This flight from exposure though, which I master, may generate stuttering speeches or hesitating actions, for instance, and consequently, misimpressions. In this case, it would be noxious. The artist practice counteracts it by inserting the person in this showplace, in the platform from where one to better plays a role cannot hide. (It has just occurred to me that one of the artist’s role is to show oneself in the lighted arena while the audience is comfortably seated in the dark).

Since DanceAbility welcomes all kinds of physicalities and their abilities,  it also welcomes self-expression in its infinite ways. It enables self-exposure when it looks at different bodies and accepts them just as they are. It sees their beauty and substance. In other words, it deals with humans rather than with super-humans.

Then, together with other practices, it is metaphorically helping me to get rid of my glasses again.

P.S. Many people want to keep their “glasses” on. No problems. Sometimes it is also positive. Moreover, DanceAbility welcomes them as well. Nevertheless, for my personal quest to keep covered is not an option, so I am well aware that it is my choice, and nobody else’s. So, do not understand what I said as a rule. Perhaps DanceAbility’s golden rule is that everyone is free to make one’s own choices.

 

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O poder do belo

(R. C. Migliorini)

Um post do Face book dizia que, certa vez, um famoso violinista tocou incógnito durante quarenta e cinco minutos no metrô de Washington. Nesse tempo quase ninguém parou para ouvi-lo. Somente as crianças deram sinais de que o fariam, caso não estivessem acompanhadas por pais apressados.

Nada me parece mais natural, já que, ao contrário do que ocorre com os adultos, na maioria das sociedades humanas, são elas que dispõem de tempo. Por sua vez são os adultos que se dedicam, não só à própria subsistência, como também à das crianças.

Ilustro meu ponto de vista com um filme a que assisti nesse final de semana. Ele era sobre a vida em uma tribo de Papua – Nova Guiné. Nele mencionaram muitas pessoas, entre elas um garoto e seu pai.

Ao garoto cabia a tarefa de cuidar dos poucos porcos da família. Como essa tarefa não exigia tanto o seu tempo, ele podia brincar com as crianças que faziam o mesmo, caçar borboletas, se entreter com vários insetos, cultivar uma mini horta e até tirar uma soneca durante o trabalho.

Local people participating at the mumu, Lakwanda, Tari, PNG.

Local people participating at the mumu, Lakwanda, Tari, PNG.

Já seu pai caminhava diariamente para uma torre de observação de onde vigiava a aproximação de inimigos. Protegia, assim, o território da aldeia e, durante o tempo lá encarapitado, fazia outras atividades que não o distraiam muito nem exigiam que ele saísse de seu posto.

Como em algumas raras ocasiões as batalhas ceifavam a vida de alguém, os homens se permitiam repeti-las em intervalos regulares, sem sequer pensar em fazer um tratado de paz. Contudo, todas terminavam antes do anoitecer, porque mesmo o guerreiro mais feroz temia os fantasmas que vagavam durante as horas de escuridão.

É interessante notar, porém, que estivesse seu povoado em em guerra ou não, o pai do menino nunca deixava de olhar as belezas ao redor. A que preferia era ver a revoada das andorinhas se recolhendo para dormir.

Talvez a atribulação máxima de vida de adulto fosse guerrear. Olhar para essas coisas, em contraposição, poderia ser o seu modo de relaxar. Parece que os seres humanos não são tão diferentes assim, vivam em uma tribo ou em uma grande cidade. Nós também transformamos nossas batalhas em entretenimento e, do mesmo modo, belas vistas e músicas nos relaxam mesmo que não tenhamos tempo para nos deter diante delas.


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O Patinho Feio versão DanceAbility

 

R. C. Migliorini

Eu estou fazendo uma oficina de DanceAbility com o pessoal do Núcleo Dança Aberta. Esta oficina pensa na diversidade corporal dos indivíduos e em como eles podem se relacionar apesar da diversidade; ou exatamente por sua causa.

No entanto, a deficiência não é o foco do trabalho. Ela é, sim, acolhida como algo que potencializa a diversidade, porém esta última já está presente entre uma pessoa e outra, não importando se alguma delas tem uma deficiência ou não.

O fundamental no DanceAbility, portanto, é o reconhecimento de que a diversidade se reflete no movimento, sendo que este é o meio de comunicação preferencial adotado em suas oficinas. Mesmo assim, em vez de ele ser introduzido no começo das aulas, o é só após uma roda de conversa.

Em uma delas surgiu o assunto da diferença perceptiva de se dançar com ou sem óculos quando a pessoa que fizer isso tiver um alto grau de “deficiência visual”. No momento em que surgiu este tópico, eu não quis me manifestar. Mas agora desejo fazê-lo. Então lá vai:

Eu tenho o que chamam de alta miopia. A minha estacionou com mais de 20 graus em cada olho. Eu uso óculos desde que me conheço por gente e o fiz ininterruptamente dos quatro anos à pré-adolescência. Com uns dez anos eu tentei substitui-los por lentes de contato. Mas eu não me adaptei a elas.

Costuma-se pensar que a inadaptação acontece por questões apenas físicas, mas a minha foi devido a um impacto psicológico.

Ele se deu porque eu tenho olhos muito bonitos, do tipo que chamam a atenção. Entretanto, durante anos eles ficaram escondidos e o que aparecia eram os grossos óculos. Ora, em geral óculos simbolizam algo negativo, ainda mais se forem muito fortes e estiverem no rosto de um garoto tímido que tira notas altas na escola. Então, eles eram, além de tudo, pretexto de “bullying”.

Por outro lado, eles, assim como a alta miopia, também protegem o indivíduo do olhar alheio, pois a pessoa não os vê. Então, quando os tirei, passei, não só a chamar a atenção, mas sobretudo a ver o olhar dos outros sobre mim. Contudo, como por dentro eu continuava fragilizado, eu fui incapaz de sustentar o olhar alheio.

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Todos diriam que eu estava pirado e que é muito legal ser o “nerd” da escola até um dia e virar o galã dos belos olhos no dia seguinte. Enfim, ser o personagem principal de uma espécie de história do Patinho Feio. Porém, agora eu vejo que é necessária uma enorme mudança interna pra se transformar do Patinho Feio num lindo cisne real. Infelizmente, essa parte da história a lenda não conta. E como no meu caso essa mudança interna não aconteceu, a externa tampouco se consumou.

Mesmo assim, me expor estava nos meus planos, tanto que eu me tornei um artista de palco.

O palco ainda perpetua essa sensação de segurança, pois, apesar de ser um espaço de exposição, mantém o artista relativamente afastado dos olhares do outro devido, por exemplo, às fortes luzes ou à arquitetura que torna o palco um espaço separado e, geralmente, inacessível ao público. Assim, de lá, eu achava confortável buscar o olhar do outro, pois eu seguia sem ver o outro me vendo.

Logo após ter me formado, adquiri uma deficiência física visível. Num certo sentido foi como voltar a ser o Patinho Feio. Houve e há, ainda, uma grande questão com a minha auto imagem. Em alguns momentos, tenho até um sentimento de vergonha que eu pensei que já houvesse superado.

Sinto também que essa fuga da exposição, do olhar do outro, pode ser nociva se aparecer numa fala hesitante ou em ações inseguras, por exemplo, e acabar gerando uma série de impressões erradas. A prática artística traz a pessoa para um espaço de exposição, para a arena onde ela tem que atuar e enquanto atua ela não pode se esconder. (Acabou de me ocorrer que um dos papéis do artista é, justamente, se expor na arena iluminada para o público poder ficar confortavelmente oculto na penumbra).

O método de DanceAbility, por conta do seu acolhimento do corpo, seja qual for, e da habilidade que esse corpo tiver, simplesmente dá licença para os infinitos caminhos da auto expressão dos, igualmente, infinitos corpos, venha à tona. Possibilita a exposição por permitir que esse corpo seja como é. Entende que ele é sempre belo e cheio de significados. Em outras palavras, lida com o ser humano, e não com o super-humano que não existe na vida real.

Metaforicamente, se une a outras práticas, para, no meu caso, me ajudar a tirar os óculos outra vez.

P.S. Ficar de “óculos” ou oculto, pode ser ótimo pra muitas pessoas, e o DanceAbility acolhe isso também. Porém, faço questão de assumir o meu lado pessoal aqui. Pra mim não é.

 


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De deuses e religiões

R. C. Migliorini

Esta semana uma pessoa comentou que um texto que eu escrevi para este blog estava bom até eu colocar a palavra deus nele. Esta crítica demonstra que a palavra deus é polêmica nos dias de hoje. Por isso, vai aqui uma explicação mais detalhada.

Eu optei por usar a palavra deus até pela controvérsia que a cerca. Talvez, minha intenção tenha sido a de desmistificar deuses e religiões, um intento aparentemente incoerente já que as duas coisas habitam o campo da fé. Porém, crença e fé não são o eixo dessa discussão, como também não o foram no texto em questão.

Usei a palavra deus e falei de religião porque o fenômeno religioso ocupa as culturas humanas desde tempos imemoriais e, no mínimo, é importante o suficiente para não ser negligenciado. Nesse sentido, para alguns estudiosos a religiosidade nasce no instante em que o ser humano passa a enterrar seus mortos, pois esse cuidado com o corpo morto sugere uma vida pós-morte.

Tal preocupação não existe entre os animais. Outro dia vi um filme em que uma fêmea de babuíno lida com a morte de seu filhote. Ela carrega o corpo inerte durante dias em um comportamento inexplicável à ciência. Porém, após alguns dias de exibição desse comportamento aparentado ao “luto” humano, ela simplesmente deixa cair o corpo do filhote no chão. Dessa forma encerra seu “luto” e segue com sua vida normal.

Note que, mais do que abandonar o corpo do filhote, ela simplesmente o soltou como largaria uma casca de banana. Não o depositou em nenhum lugar especial nem tampouco o arrumou em alguma posição específica.

O ser humano quase nunca age ou agiu assim. Querendo ou não sempre tratamos o corpo humano com alguma deferência. Mesmo estudantes de medicina têm que demonstrar (não sei se oficialmente por meio de um juramento) uma atitude “respeitosa” diante de um cadáver humano.

Cerimônias mortuárias as mais diversas existem desde tempos imemoriais em todas as culturas e religiões. Invariavelmente rituais de uma determinada cultura chocam pessoas de outras. A que mais me choca é um antigo ritual indonésio em que o morto era colocado em um vazo, e o chorume da putrefação do corpo, recolhido e misturado à água do arroz que alimentava seus parentes. Contudo, por mais estranhos que sejam, todos esses rituais mortuários, refletem uma atitude religiosa. Por sua vez, comportamentos rituais e religiosos dizem muito do ser humano.

Em nossa cultura atual, a morte ocorre longe do olhar do público e dos parentes do falecido. O mesmo se dá com o ato de se cremar um cadáver, por exemplo, ou mesmo de enterrá-lo em cemitérios e não no quintal da casa dos parentes vivos. A morte deve ficar afastada de nossos pensamentos e preocupações. Ela tornou-se pornográfica. E falar de deuses e religiões é quase tão pornográfico quanto.


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Delimitação versus delírio

(R. C. Migliorini)

Ao encontrar uma barreira como um paredão de rochas, um rio não para. Simplesmente se desvia e corre em outra direção. No percurso, ganha cachoeiras, corredeiras, afluentes e curvas sinuosas. Mais do que isso, um simples regato pode tornar-se um rio tão caudaloso quanto o Amazonas. Por conseguinte, as barreiras, mais do que impedir o curso do rio, definem a sua forma.

Com isso, sugerimos que limite é forma, já que graças aos contornos particulares de cada uma, as reconhecemos. Assim, diferenciamos o céu das nuvens, da chuva, do pingo d’água e da poça. Da mesma forma, distinguimos uma pessoa da outra, pois são os limites que nos fazem singulares.

O limite também é essencial à organização. Por exemplo, creiamos ou não na criação do mundo, Deus começou Seu trabalho separando a luz das trevas. Criou, assim, limites para uma e outra. De modo semelhante, fazemos o mesmo ao apartar o joio do trigo, os animais domesticáveis dos selvagens e a lavoura do matagal. E também ao separar o tempo em parcelas menores como anos, meses, semanas, dias, horas, minutos e segundos para melhor ordenar nossas ações em relação a ele.

Já a conexão entre saúde e organização se dá, porque o câncer pode ser descrito como um crescimento desordenado de células. Na esquizofrenia, por sua vez,  há a perda dos limites que circunscrevem o Eu, inclusive fisicamente, e o destacam do entorno. Tantos são os casos que restabelecer a saúde, me parece, implica em recompor limites e fronteiras.

O limite é, sim, imposto pela realidade. Porém, ao contrário do que parece, não é algo que constrange ou impede a expressão. Fayga Ostrower ilustra muito bem essa ideia dizendo que tal como as margens de um rio, ou como a praia e os continentes, o limite permite que nos aventuremos por águas turbulentas com a certeza de sempre podermos voltar a terra firme quando necessário.

Sabendo disso, a pessoa criativa não se ressente dessas possibilidades; antes se adapta a elas e começa sua criação a partir do limite que a realidade lhe impõe. Assim, no que tange a este texto, o limite é o seu número de caracteres à minha disposição. Essa realidade material já determina certos caminhos e certas escolhas e, ao mesmo tempo em que algumas precisam ser descartadas, outras tantas devem ser adotadas. Ou seja, criar é um ato contínuo de fechar e abrir possibilidades.

Em verdade, ao criarmos lidamos concomitantemente com a realidade imutável e com a fantasia, pois o fato sem o sonho torna-se assaz opressivo, e o sonho sem o fato não passa de puro delírio.


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O pneu furado do bonde do Faustão

R.C.Migliorini

Acabei de ver o quadro “A dança dos famosos”. O quadro propõe ritmos e estilos de dança diferentes que todos devem executar. No entanto, é raro uma única pessoa ter um desempenho ótimo em todos eles.

Tomemos o exemplo do funk. Vários famosos com cerca de quarenta ou cinquenta anos falaram que nunca haviam dançado esse estilo e nenhum deles foi bem ao dançá-lo. Ora, o funk não favorece essa faixa etária; É uma dança criada por jovens e para jovens. O figurino usado é de jovens e a dança exalta a beleza física e a força atlética de jovens. A plateia aplaudiu de pé um artista mais velho que tentou demonstrar esses atributos. Já eu acho tudo isso bizarro e humilhante.

Em contraponto, lembro-me do tango dançado por Cristiane Torloni. O artista bastante jovem que competia com ela ficou em segundo lugar. Atleticamente ele se sobressaia a ela, mas não era isso que estava em questão. Além da maturidade exigida pelo tango, faltava-lhe um corpo tão anatomicamente adequado para essa dança quanto o dela. Se naquele dia o ritmo escolhido fosse o funk, o resultado seria inverso.

Ontem, neste mesmo quadro, falou-se da necessidade da desconstrução de modelos antigos para criação do novo. Logo em seguida foi divulgado um livro que defendia o que chamava de moda intuitiva, ou seja, a necessidade de não se copiar os ícones da moda sem nenhuma crítica.

No caso da sensualidade requerida pelo funk, a de uma pessoa de quarenta ou cinquenta é diferente do que a de uma pessoa de vinte. Um corpo bem acima do peso também pode ser sensual, mas ao buscar essa sensualidade como faz alguém com um corpo que não seja obeso, é ridículo.

A pessoa criativa pode ser sensual, segura e transmitir sua força vital, porque gosta do seu corpo, da sua profissão e de si. Daí não precisa ficar travada, ou transmitir a imagem de alguém com autoestima baixa, porque não teima em espelhar-se nos outros e em enxergar em si apenas desvantagens. Assim, creio que esse bonde levaria muito mais pessoas se, em vez de colocá-las todas no mesmo saco, as levasse a ver sua particularidade e beleza individual.

Contudo, já que ele não faz isso, façamos nós: tentemos veicular a imagem do poder da pessoa criativa. De certa forma, para isso basta imaginar a Cristiane Torloni dançando funk vestida com as roupas e exibindo os modos de uma adolescente poposuda.

agosto de 2013


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Pelo vale da sombra da morte (rev)

 R. C. Migliorini

 “Eis que aprendi

Nesses vales onde afundam os poentes:

Afinal, tudo são luzes

E a gente se acende é nos outros.

A vida é um fogo,

Nós somos suas breves incandescências.”

(Mia Couto)

Eu andei bem borocochô nas últimas semanas. Talvez porque eu estivesse precisando de um afago, escrevi um texto chamado “O afago nosso de cada dia”. Coincidentemente, durante esse período eu passei pela primeira sessão de uma terapia somática que se utiliza muito de massagem, o que, entre outras coisas, valeu pelo afago. Ainda mais que ela foi presente de um amigo querido que é terapeuta e que, há muito tempo, eu não via. Essa técnica também usa muito o relaxamento. Como fazia muito tempo que eu não tinha sensações de férias, de relax, de abandono, de entrega, de curtição, de descompromisso, a sessão me deu um pouco dessas sensações.

Diante disso eu deveria estar contente, não? Até porque nesta, que foi a primeira sessão de uma série, experimentei sensações corporais não sentidas há duas décadas e, em decorrência, brotaram várias memórias. Eu fiquei bestificado, emocionado e com uma mistura estranha de alegria e tristeza. Passei uns dois dias pensando em morte e com a sensação de um hiato irrecuperável de vinte anos. Nada do que eu vivera tinha significado ou apontava para uma esperança. Minha vida me parecia mentirosa e ilusória: educação, colégios particulares, excelentes universidades, intercâmbio fora do Brasil, fluência escrita e falada em inglês, valores de uma família estruturadíssima e religiosa, amizades verdadeiras, amores vividos ou chorados, meu jeito de ser e por aí vai. Um passado oco, um presente vazio e um futuro vago. Porém, misturado a todo esse ceticismo, havia uma sensação de confiança na vida e de que tudo ia dar certo.

Ontem me vi respondendo comentários em uma comunidade voltada pra pessoas com hemiplegia. Há duas semanas, eu não conseguia escrever pra eles. Eu lia as queixas, as dúvidas e as incertezas e ficava deprimido. Agora eu respondia a tudo isso com palavras de carinho e bom-humor, conseguindo transmitir confiança, otimismo, e tranquilidade. Então, hoje acordei, com a sensação de que eu tinha passado mais uma vez pelo “vale das sombras da morte”, saído dele inteiro e voltado a curtir o sol. As minhas sensações tinham sido uma espécie de expurgo e de purificação. Como isso aconteceu? Foi isso mesmo? Eu não sei. Mas, parafraseando o Chicó do Alto da Compadecida, só sei que foi assim…