Roda de Cura/Centauros Feridos

Arte, saúde e seres híbridos: transgressões e integrações de fronteiras


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O poder da comunicação não verbal

 

R.C.Migliorini

 

O homem está só diante do incompreensível: angústia, medo, atração, mistério. As palavras de nada servem. Para que dar a isso nomes como Deus, Absoluto, Natureza, Acaso? O que é preciso é entrar em contato. O que o homem busca, para além da compreensão, é a comunicação. A dança nasce dessa necessidade de dizer o indizível, de conhecer o desconhecido, de estar em relação com o outro.

 O homem faz parte de um dado grupo. E tem necessidade de se sentir fazendo parte integralmente desse grupo: de estar em relação com os outros. Mais do que as leis, os costumes, os trajes e a linguagem é o gesto que vai dar existência a essa união. As mãos se juntam, o ritmo une as respirações, a dança nasce.

Maurice Béjart

O corpo é o espelho do pensamento. […] O movimento físico é o primeiro efeito normal de qualquer experiência mental ou emocional.

John Martin

Introdução

Lembro-me de que há alguns anos foi encenada uma peça soibre o romance Vidas Secas de Graciliano Ramos. Justamente o ator que interpretava a cachorra Baleia, foi premiado por sua interpretação. Ele não falava uma só palavra durante a peça. Llimitava-se a coçar-se, andar de quatro, encolher-se embaixo da mesa, e, por meio de ações corporais, demonstrava estados de alegria, medo, prontidão e assim por diante. Expressava-se somente pelo movimento.

Outro exemplo – este de 2003 – é o filme estrelado por Tom Cruise, “O Último Samurai”. O filme retrata um soldado americano que foi ao Japão para liderar uma luta contra rebeldes samurais. Apanhado, foi levado à aldeia em que eles viviam e nela mantido prisioneiro durante todo o inverno. Entretanto, como nessa estação a aldeia ficava isolada do resto do país pelas altas montanhas nevadas que a circundavam, não havia razão para mantê-lo em uma cela. Por essa razão, ele circulava livremente na vila e, enquanto isso, observava seus habitantes e interagia com eles. Acaba assim, entendendo e se apaixonando pela cultura e valores daqueles guerreiros e passa até mesmo a treinar e a aprender o Kendo (o caminho da espada). Entretanto, nos “diálogos” e contatos entre captores e capturado, ambas as partes estavam impossibilitadas de se comunicar pela palavra por falarem línguas diferentes, mas isso não impediu que se conhecessem, nem que viessem a se querer bem, pois os olhares, os gestos, os comportamentos diante das várias situações que surgiam “diziam” o que não podia ser expresso em palavras. Enfim, foi a partir do que viram um no outro e do que deduziram pela observação dos elementos não verbais, que os inimigos originais começaram a se conhecer, se respeitar e se relacionar, tornando-se grandes amigos.

Comunicação não verbal

Certa feita,  em viagem de férias a uma ilha do Mediterrâneo, o coreógrafo Maurice Béjart teve a oportunidade de viver durante algumas semanas a vida dos pescadores locais. Notou, então, que ao regressavam a terra após o dia de trabalho, quando se sentavam e começavam a conversar, acabavam discutindo. Nesses momentos, reinava a incompreensão. Entretanto, quando começavam a dançar, a vida era celebrada sem palavras e havia harmonia e a união entre eles.

O relato dessa experiência sugere a importância do movimento e o fato de, às vezes, ele ser muito mais eficaz para a harmonia e união das pessoas do que a palavra falada, exatamente porque possibilita um diálogo apenas baseado em sentimentos e emoções, e não no raciocínio e na argumentação.

A primeira vez que senti o poder do movimento para unir pessoas foi há mais de vinte anos, quando vi o vídeo de uma companhia de dança de bailarinos surdos dos E.U.A.

Era notável o respeito que os integrantes da companhia nutriam pelo movimento e pelo corpo do(a) companheiro(a) de palco. O motivo, creio eu, residia no fato de o movimento representar para eles uma possibilidade de contato, organização e expressão de algo impossível de ser abarcado de forma racional e também por ser um elemento de comunicação importante, um modo de chegar ao outro. Será preciso que fiquemos impedidos de nos comunicar verbalmente para entender o poder da comunicação não verbal para um diálogo verdadeiro?

Passos com paixão

Em 2007 a teóloga belga radicada na Holanda, Lieve Troch organizou o livro Passos com paixão: uma teologia do dia-a-dia. Escrito por três mulheres, a obra é marcada por experiências pautadas no cotidiano, pois, conforme creio, a teologia – talvez vista por mim de forma extremamente simplificada – nada mais é do que a soma de reflexões acerca da união com o divino que há em nossos corpos e alma, nos corpos e almas das outras pessoas e também nos objetos e locais mais diversos. Portanto, ao contrário do que costuma sugerir a visão teológica patriarcal, para essas teólogas o divino também se manifesta em espaços prosaicos como cozinha, praia, aeroportos, interior de vasilhames e por meio de ações simples como dançar, festejar, cantar, andar à beira-mar, cozinhar, comer, limpar, tentar se comunicar com o outro, ou ainda, como na prosa e no verso de duas outras mulheres, Clarisse Lispector e Adélia Prado, ao se fritar um ovo ou ao se limpar um peixe. O fascinante é que nenhuma dessas ações e expressões se pauta necessariamente no verbal e quando acontece, ele é usado mais para ampliar as experiências sensoriais e emocionais do que para defender ideias e pontos de vista.

No mesmo livro, em seu texto Exercícios em maravilhar-se: fronteiras e transgressões de fronteiras na teologia feminista, Troch fala das áreas fronteiriças, da terra de ninguém e do prazer que sentia quando ia à praia, em sua infância. Nessas ocasiões, gostava de “ficar horas a fio na linha do fluxo da maré, na fronteira onde a água e a terra se encontram”. Afirma que essa é uma fronteira em mutação constante por causa da movimentação ininterrupta da água e da areia. Além disso, ela também tem uma “cara” própria que não é nem a da terra e um nem a do mar. Para Troch, andar por horas a fio nessa linha em contínua mutação, dá a entender que se é capaz de mudar as próprias fronteiras e os próprios limites.

Então, de forma coerente com o título do seu artigo, pensamentos sobre fronteiras, terras de ninguém, frequentadores forçados de fronteira, identidade, interculturalidade, mestiçagem, hibridismo, relações de gênero, zonas de contato, questionamentos versus busca de conexões, assim como tensões entre restrição e liberdade, cultura global e local, centro e margem percorrem todo o texto. A autora salienta: na verdade temas ligados à fronteiras e transgressão de fronteiras são uma paixão feminista-teológica.

Mas por serem intrigantes, questões relacionadas à fronteira não se restringem apenas às abordagens feministas. O teólogo Paul Tillich referiu-se a ela em um livro autobiográfico intitulado On the Boundary (Na fronteira). Nele conta que na introdução de outra de suas obras, Religious Realization, escreveu: “A fronteira é o melhor lugar para adquirir conhecimento”. Ele também vê o conceito de fronteira como o símbolo mais adequado para todo o seu desenvolvimento pessoal e intelectual. Em quase toda a sua história, diz, viveu “entre possibilidades alternativas de existência, sem se sentir realmente à vontade com nenhuma e sem adotar uma posição definitiva em relação a elas”. Segundo ele, o pensamento pressupõe receptividade a essas novas possibilidades, e essa posição, embora frutífera para o pensamento, também é difícil e perigosa em relação à vida. No livro, sempre discute uma possibilidade em relação à outra, mesmo quando as opõe. Por fim, afirma que a fronteira maior é aquela existente entre o Eterno e as possibilidades humanas, pois, na presença do Eterno, o que nos parece central em nosso ser é periférico e fragmentário. (Tillich, 1967, p. 98)

Contato x isolamento

Da mesma forma que existem fronteiras entre lugares, existem entre corpos. Suas balizas são as simples diferenças entre um e outro corpo e o isolamento,  por vezes físico, desses corpos. A pele, por exemplo, distingue (isola) um corpo dos corpos e objetos circundantes. Dessa forma, um simples gosto alimentar destaca um corpo do outro, como também opiniões filosóficas, escolhas de vida, idade, cultura, características físicas, crenças religiosas, orientação sexual e limitações espaciais e físicas. Todas essas diferenças os impedem de se fundirem, misturarem e amalgamarem em uma massa informe.

Enfim, são inúmeras as diferenças, limites e fronteiras que, além de permearem a humanidade, demarcam todas as nossas experiências. Tanto é assim que a Gestalt afirma que seríamos incapazes de perceber o mundo sem diferenças, limites, fronteiras ou demarcações.

Porém, limites e fronteiras, isolam ao passo que simultaneamente são pontos de contato, de forma que em alguns momentos, podemos transcender tal isolamento de modo saudável (1) ao unir corpos em uma dança e permitir que o silêncio ou o emudecimento abafem os ruídos do choque de ideias que frequentemente impedem essa união.

Física escolar

Se bem me lembro das lições de física da escola, quando dois corpos são unidos, é como se formassem um terceiro. Sendo assim, o eixo gravitacional de cada um é deslocado para o espaço entre eles. O mesmo se dá quando vários corpos se unem para formar outro como, por exemplo, em uma roda formada por várias pessoas. Cada corpo individual tem seu próprio eixo, mas ao se unirem para formar o círculo, esse eixo é deslocado para o centro dele. Essa sensação é sentida no físico de cada indivíduo que forme o círculo e também é comum ser seguida por uma resposta emocional, pois quando o círculo se movimenta, o indivíduo sente-se maravilhado pela simples razão de estar se movimentando em torno de um eixo que está fora de seu corpo, no centro da roda. Nessa experiência, ele transcende os limites do corpo individual e passa a fazer parte de um corpo coletivo. Os movimentos não são mais produzidos só por ele, e sim por todos.

Guerreiro – dançarino

 

Para escrever este artigo, acabei vendo algumas imagens do “Último Samurai” na web. Uma das imagens me chamou a atenção. Os dois protagonistas do filme treinavam Kendo, isto é: técnica tradicional de combate com espadas dos samurais do japão feudal. Ao vê-la, ocorreu-me que, assim como a dança, a luta também lida com fronteiras e suas transgressões.

A luta trata da defesa de fronteiras, mas para as defender e demarcar, ela as obriga a se tocarem. No kendo, a luta do filme, por exemplo, esse toque é feito com as espadas. Quando elas estão como que coladas uma â outra, os combatentes giram, mantendo-as unidas. É como a experiência da roda mencionada acima. Outro eixo, no caso um concreto e material, é formado entre os dois.

Mesmo sem entender muito de lutas, creio que algo semelhante se dá em todas. E os consequentes movimentos de aproximação, afastamento, ataque, defesa, ameaça e muitos outros sugerem uma dança.

Talvez isso tenha sido sentido ou explicitado por alguns coreógrafos como Rudolf Laban e Ohad Naharin. O primeiro era filho de um oficial do exército austro-húngaro e observou a movimentação dos soldados nas inúmeras visitas que fez com o pai aos batalhões do exército imperial. Já Naharin serviu o exército israelense e Tomer Heymann, diretor do filme Mr Gaga, sobre a vida e obra do coreógrafo, sugere que sua passagem pelo exército é essencial em sua obra.

Rudolf Laban baseou grande parte de seu método de análise do movimento na observação de movimentos militares. Esse método presta-se tanto ao trabalho com profissionais, por seu alto nível de exigência e criatividade, quanto ao trabalho com amadores, de crianças a idosos, dado seu caráter simples e intuitivo. Mais de meio século depois, Ohad Naharim fez o mesmo com o método Gaga.

O bailarino e coreógrafo contemporâneo brasileiro Eduardo Fukushima afirma em entrevista que uma de suas fontes de inspiração é um estilo de Tai Chi Chuan originário do sul da China. Ora, o Tai Chi Chuan é uma luta utilizada por vários bailarinos e coreógrafos, brasileiros e estrangeiros. Na faculdade de dança da Unicamp, era uma das matérias obrigatórias, assim como a Capoeira, outra luta, essa brasileira.

Considerações finais

Troch coloca que a formação de teorias e teologias feminista tematizam fronteiras e transgressões de fronteiras em seus métodos de trabalho, de forma que temas fora das fronteiras do estritamente teológicos passam a ser constante fontes de reflexões teológicas. Nesse sentido, apesar de, segundo o que penso, as artes – sobretudo a dança – e os artistas  não serem levados muito a sério pelos meios acadêmicos e até mesmo pelo senso comum, ganham cada vez maior interesse e respeito. Isso me parece bastante promissor, já que, assim como entre as pessoas, eu sinto que há um embate desnecessário entre diferentes campos do conhecimento. No entanto, ser capaz de atuar sobre a angústia do ser-humano é primordial para mim como artista assim como, creio eu, para grande parte dos teólogos e teólogas. Afinal, a fronteira é ou não o melhor lugar para se adquirir conhecimento?

Quiçá, por meio da dança, do movimento e da relação corporal com o outro, logremos nos sentir parte do todo e sermos capazes de dizer — não necessariamente com palavras —, a quem estiver ao nosso lado: o Deus que há em mim saúda o Deus que há em você. Namastê.

Notas:
(1) falo de transcender um isolamento fronteiriço de forma saudável tomando como exemplo do contrário a esquizofrenia. Ela é uma forma patológica de perda de fronteiras e de fusão com o outro e com o meio.

Referências

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Erick Calistrato

Fui para a faculdade ontem (dia 07/08) de kilt por dois motivos. Primeiramente, para chamar atenção, acho que isso todo mundo já sabe, né. E segundamente, e obviamente mais importantemente (não estou mentindo): Eu quis sofrer preconceito.

Depois de ler uma matéria sobre transgêneros (não confundir com transgênicos) e sobre o Laerte, cartunista brasileiro famoso que resolveu se vestir como mulher aos 65 anos de idade, fiquei muito chocado, mas muito curioso. Procurei mais sobre e encontrei uma entrevista com ele no programa Roda Viva, na TV Cultura. Naquela entrevista, uma repórter fez uma pergunta muito interessante e perturbadora, que foi mais ou menos assim: “Larte, você fazia parte de um grupo que praticamente é imune, né. Branco, magro, classe média, heterossexual, bem sucedido, pai de família. Como é perder completamente essa barreira?”. Eu fiquei muito surpreso em ver que, tirando a parte do “pai” e do “bem sucedido”, a descrição batia com a minha própria! Eu nunca havia parado para pensar o quão fácil e livre de preconceitos a minha vida havia sido até então, sem eu nunca ter feito NADA para “merecer” isso.
Desde então tenho lido muito sobre preconceito, homofobia, transgêneros, exclusão, minorias, cotas. Resolvi aproveitar o presente que minha namorada trouxe para saber como uma pessoa NADA comum se sente em espaços públicos. Estava usando um adereço simples, comum em outros países, símbolo até de status social em alguns lugares, mas extremamente estigmatizado no Brasil. Um kilt é uma saia, e não interessa de onde vem: Se você é homem, você não pode usar saia, senão você é viado. E viados são sujos. Foi mais ou menos isso que eu quase pude escutar dos olhares, cutucadas, risadas e comentários das pessoas nas ruas, no ônibus, no metrô, em casa.

Convido a todos que se acham inteligentes, maduros e sem preconceitos a andar de mãos dadas, ou até abraçado com alguém do mesmo sexo. Ou com uma roupa muito incomum. Ou até mesmo aparentando qualquer defeito físico. Quando você se vê rodiado de pessoas te olhando e fazendo questão de mostrar que estão insatisfeitas com sua aparência, você percebe como é mais fácil ser branco, magro, classe média, heterossexual, bem sucedido, pai de família.