Roda de Cura/Centauros Feridos

Arte, saúde e seres híbridos: transgressões e integrações de fronteiras


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O poder da comunicação não verbal

 

R.C.Migliorini

 

O homem está só diante do incompreensível: angústia, medo, atração, mistério. As palavras de nada servem. Para que dar a isso nomes como Deus, Absoluto, Natureza, Acaso? O que é preciso é entrar em contato. O que o homem busca, para além da compreensão, é a comunicação. A dança nasce dessa necessidade de dizer o indizível, de conhecer o desconhecido, de estar em relação com o outro.

 O homem faz parte de um dado grupo. E tem necessidade de se sentir fazendo parte integralmente desse grupo: de estar em relação com os outros. Mais do que as leis, os costumes, os trajes e a linguagem é o gesto que vai dar existência a essa união. As mãos se juntam, o ritmo une as respirações, a dança nasce.

Maurice Béjart

O corpo é o espelho do pensamento. […] O movimento físico é o primeiro efeito normal de qualquer experiência mental ou emocional.

John Martin

Introdução

Lembro-me de que há alguns anos foi encenada uma peça soibre o romance Vidas Secas de Graciliano Ramos. Justamente o ator que interpretava a cachorra Baleia, foi premiado por sua interpretação. Ele não falava uma só palavra durante a peça. Llimitava-se a coçar-se, andar de quatro, encolher-se embaixo da mesa, e, por meio de ações corporais, demonstrava estados de alegria, medo, prontidão e assim por diante. Expressava-se somente pelo movimento.

Outro exemplo – este de 2003 – é o filme estrelado por Tom Cruise, “O Último Samurai”. O filme retrata um soldado americano que foi ao Japão para liderar uma luta contra rebeldes samurais. Apanhado, foi levado à aldeia em que eles viviam e nela mantido prisioneiro durante todo o inverno. Entretanto, como nessa estação a aldeia ficava isolada do resto do país pelas altas montanhas nevadas que a circundavam, não havia razão para mantê-lo em uma cela. Por essa razão, ele circulava livremente na vila e, enquanto isso, observava seus habitantes e interagia com eles. Acaba assim, entendendo e se apaixonando pela cultura e valores daqueles guerreiros e passa até mesmo a treinar e a aprender o Kendo (o caminho da espada). Entretanto, nos “diálogos” e contatos entre captores e capturado, ambas as partes estavam impossibilitadas de se comunicar pela palavra por falarem línguas diferentes, mas isso não impediu que se conhecessem, nem que viessem a se querer bem, pois os olhares, os gestos, os comportamentos diante das várias situações que surgiam “diziam” o que não podia ser expresso em palavras. Enfim, foi a partir do que viram um no outro e do que deduziram pela observação dos elementos não verbais, que os inimigos originais começaram a se conhecer, se respeitar e se relacionar, tornando-se grandes amigos.

Comunicação não verbal

Certa feita,  em viagem de férias a uma ilha do Mediterrâneo, o coreógrafo Maurice Béjart teve a oportunidade de viver durante algumas semanas a vida dos pescadores locais. Notou, então, que ao regressavam a terra após o dia de trabalho, quando se sentavam e começavam a conversar, acabavam discutindo. Nesses momentos, reinava a incompreensão. Entretanto, quando começavam a dançar, a vida era celebrada sem palavras e havia harmonia e a união entre eles.

O relato dessa experiência sugere a importância do movimento e o fato de, às vezes, ele ser muito mais eficaz para a harmonia e união das pessoas do que a palavra falada, exatamente porque possibilita um diálogo apenas baseado em sentimentos e emoções, e não no raciocínio e na argumentação.

A primeira vez que senti o poder do movimento para unir pessoas foi há mais de vinte anos, quando vi o vídeo de uma companhia de dança de bailarinos surdos dos E.U.A.

Era notável o respeito que os integrantes da companhia nutriam pelo movimento e pelo corpo do(a) companheiro(a) de palco. O motivo, creio eu, residia no fato de o movimento representar para eles uma possibilidade de contato, organização e expressão de algo impossível de ser abarcado de forma racional e também por ser um elemento de comunicação importante, um modo de chegar ao outro. Será preciso que fiquemos impedidos de nos comunicar verbalmente para entender o poder da comunicação não verbal para um diálogo verdadeiro?

Passos com paixão

Em 2007 a teóloga belga radicada na Holanda, Lieve Troch organizou o livro Passos com paixão: uma teologia do dia-a-dia. Escrito por três mulheres, a obra é marcada por experiências pautadas no cotidiano, pois, conforme creio, a teologia – talvez vista por mim de forma extremamente simplificada – nada mais é do que a soma de reflexões acerca da união com o divino que há em nossos corpos e alma, nos corpos e almas das outras pessoas e também nos objetos e locais mais diversos. Portanto, ao contrário do que costuma sugerir a visão teológica patriarcal, para essas teólogas o divino também se manifesta em espaços prosaicos como cozinha, praia, aeroportos, interior de vasilhames e por meio de ações simples como dançar, festejar, cantar, andar à beira-mar, cozinhar, comer, limpar, tentar se comunicar com o outro, ou ainda, como na prosa e no verso de duas outras mulheres, Clarisse Lispector e Adélia Prado, ao se fritar um ovo ou ao se limpar um peixe. O fascinante é que nenhuma dessas ações e expressões se pauta necessariamente no verbal e quando acontece, ele é usado mais para ampliar as experiências sensoriais e emocionais do que para defender ideias e pontos de vista.

No mesmo livro, em seu texto Exercícios em maravilhar-se: fronteiras e transgressões de fronteiras na teologia feminista, Troch fala das áreas fronteiriças, da terra de ninguém e do prazer que sentia quando ia à praia, em sua infância. Nessas ocasiões, gostava de “ficar horas a fio na linha do fluxo da maré, na fronteira onde a água e a terra se encontram”. Afirma que essa é uma fronteira em mutação constante por causa da movimentação ininterrupta da água e da areia. Além disso, ela também tem uma “cara” própria que não é nem a da terra e um nem a do mar. Para Troch, andar por horas a fio nessa linha em contínua mutação, dá a entender que se é capaz de mudar as próprias fronteiras e os próprios limites.

Então, de forma coerente com o título do seu artigo, pensamentos sobre fronteiras, terras de ninguém, frequentadores forçados de fronteira, identidade, interculturalidade, mestiçagem, hibridismo, relações de gênero, zonas de contato, questionamentos versus busca de conexões, assim como tensões entre restrição e liberdade, cultura global e local, centro e margem percorrem todo o texto. A autora salienta: na verdade temas ligados à fronteiras e transgressão de fronteiras são uma paixão feminista-teológica.

Mas por serem intrigantes, questões relacionadas à fronteira não se restringem apenas às abordagens feministas. O teólogo Paul Tillich referiu-se a ela em um livro autobiográfico intitulado On the Boundary (Na fronteira). Nele conta que na introdução de outra de suas obras, Religious Realization, escreveu: “A fronteira é o melhor lugar para adquirir conhecimento”. Ele também vê o conceito de fronteira como o símbolo mais adequado para todo o seu desenvolvimento pessoal e intelectual. Em quase toda a sua história, diz, viveu “entre possibilidades alternativas de existência, sem se sentir realmente à vontade com nenhuma e sem adotar uma posição definitiva em relação a elas”. Segundo ele, o pensamento pressupõe receptividade a essas novas possibilidades, e essa posição, embora frutífera para o pensamento, também é difícil e perigosa em relação à vida. No livro, sempre discute uma possibilidade em relação à outra, mesmo quando as opõe. Por fim, afirma que a fronteira maior é aquela existente entre o Eterno e as possibilidades humanas, pois, na presença do Eterno, o que nos parece central em nosso ser é periférico e fragmentário. (Tillich, 1967, p. 98)

Contato x isolamento

Da mesma forma que existem fronteiras entre lugares, existem entre corpos. Suas balizas são as simples diferenças entre um e outro corpo e o isolamento,  por vezes físico, desses corpos. A pele, por exemplo, distingue (isola) um corpo dos corpos e objetos circundantes. Dessa forma, um simples gosto alimentar destaca um corpo do outro, como também opiniões filosóficas, escolhas de vida, idade, cultura, características físicas, crenças religiosas, orientação sexual e limitações espaciais e físicas. Todas essas diferenças os impedem de se fundirem, misturarem e amalgamarem em uma massa informe.

Enfim, são inúmeras as diferenças, limites e fronteiras que, além de permearem a humanidade, demarcam todas as nossas experiências. Tanto é assim que a Gestalt afirma que seríamos incapazes de perceber o mundo sem diferenças, limites, fronteiras ou demarcações.

Porém, limites e fronteiras, isolam ao passo que simultaneamente são pontos de contato, de forma que em alguns momentos, podemos transcender tal isolamento de modo saudável (1) ao unir corpos em uma dança e permitir que o silêncio ou o emudecimento abafem os ruídos do choque de ideias que frequentemente impedem essa união.

Física escolar

Se bem me lembro das lições de física da escola, quando dois corpos são unidos, é como se formassem um terceiro. Sendo assim, o eixo gravitacional de cada um é deslocado para o espaço entre eles. O mesmo se dá quando vários corpos se unem para formar outro como, por exemplo, em uma roda formada por várias pessoas. Cada corpo individual tem seu próprio eixo, mas ao se unirem para formar o círculo, esse eixo é deslocado para o centro dele. Essa sensação é sentida no físico de cada indivíduo que forme o círculo e também é comum ser seguida por uma resposta emocional, pois quando o círculo se movimenta, o indivíduo sente-se maravilhado pela simples razão de estar se movimentando em torno de um eixo que está fora de seu corpo, no centro da roda. Nessa experiência, ele transcende os limites do corpo individual e passa a fazer parte de um corpo coletivo. Os movimentos não são mais produzidos só por ele, e sim por todos.

Guerreiro – dançarino

 

Para escrever este artigo, acabei vendo algumas imagens do “Último Samurai” na web. Uma das imagens me chamou a atenção. Os dois protagonistas do filme treinavam Kendo, isto é: técnica tradicional de combate com espadas dos samurais do japão feudal. Ao vê-la, ocorreu-me que, assim como a dança, a luta também lida com fronteiras e suas transgressões.

A luta trata da defesa de fronteiras, mas para as defender e demarcar, ela as obriga a se tocarem. No kendo, a luta do filme, por exemplo, esse toque é feito com as espadas. Quando elas estão como que coladas uma â outra, os combatentes giram, mantendo-as unidas. É como a experiência da roda mencionada acima. Outro eixo, no caso um concreto e material, é formado entre os dois.

Mesmo sem entender muito de lutas, creio que algo semelhante se dá em todas. E os consequentes movimentos de aproximação, afastamento, ataque, defesa, ameaça e muitos outros sugerem uma dança.

Talvez isso tenha sido sentido ou explicitado por alguns coreógrafos como Rudolf Laban e Ohad Naharin. O primeiro era filho de um oficial do exército austro-húngaro e observou a movimentação dos soldados nas inúmeras visitas que fez com o pai aos batalhões do exército imperial. Já Naharin serviu o exército israelense e Tomer Heymann, diretor do filme Mr Gaga, sobre a vida e obra do coreógrafo, sugere que sua passagem pelo exército é essencial em sua obra.

Rudolf Laban baseou grande parte de seu método de análise do movimento na observação de movimentos militares. Esse método presta-se tanto ao trabalho com profissionais, por seu alto nível de exigência e criatividade, quanto ao trabalho com amadores, de crianças a idosos, dado seu caráter simples e intuitivo. Mais de meio século depois, Ohad Naharim fez o mesmo com o método Gaga.

O bailarino e coreógrafo contemporâneo brasileiro Eduardo Fukushima afirma em entrevista que uma de suas fontes de inspiração é um estilo de Tai Chi Chuan originário do sul da China. Ora, o Tai Chi Chuan é uma luta utilizada por vários bailarinos e coreógrafos, brasileiros e estrangeiros. Na faculdade de dança da Unicamp, era uma das matérias obrigatórias, assim como a Capoeira, outra luta, essa brasileira.

Considerações finais

Troch coloca que a formação de teorias e teologias feminista tematizam fronteiras e transgressões de fronteiras em seus métodos de trabalho, de forma que temas fora das fronteiras do estritamente teológicos passam a ser constante fontes de reflexões teológicas. Nesse sentido, apesar de, segundo o que penso, as artes – sobretudo a dança – e os artistas  não serem levados muito a sério pelos meios acadêmicos e até mesmo pelo senso comum, ganham cada vez maior interesse e respeito. Isso me parece bastante promissor, já que, assim como entre as pessoas, eu sinto que há um embate desnecessário entre diferentes campos do conhecimento. No entanto, ser capaz de atuar sobre a angústia do ser-humano é primordial para mim como artista assim como, creio eu, para grande parte dos teólogos e teólogas. Afinal, a fronteira é ou não o melhor lugar para se adquirir conhecimento?

Quiçá, por meio da dança, do movimento e da relação corporal com o outro, logremos nos sentir parte do todo e sermos capazes de dizer — não necessariamente com palavras —, a quem estiver ao nosso lado: o Deus que há em mim saúda o Deus que há em você. Namastê.

Notas:
(1) falo de transcender um isolamento fronteiriço de forma saudável tomando como exemplo do contrário a esquizofrenia. Ela é uma forma patológica de perda de fronteiras e de fusão com o outro e com o meio.

Referências

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BALDWIN, Stephen C. Pictures in the air: the story of the National Theatre of the Deaf. Washington, DC: Gallaudet University Press, 1993.

BATERNIEFF, Irmingard. Coping with the environment. New York; London: Routlege, 2002

BÉJART, Maurice. Prefácio In:* GARAUDY, Roger. Dançar a vida. 2ª edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.

BOFF, Leonardo. A vida dos sacramentos e os sacramentos da vida. Petrópolis: Vozes, 1979.

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CAMPBELL, Joseph; MOYERS, Bill. O Poder do Mito. São Paulo: Palas Athena, 1990.

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GUERRA, Maria Helena R. Mandacarú. (2007). Espírito da terra: a religiosidade popular da América Latina. Jung & Corpo. Ano VII, n 7: 7.

JANÔ, Antonio Januzelli. A aprendizagem do ator. São Paulo: Editora Ática, 1986.

LABAN, Rudolf*. Modern educational dance*. 3ª edição. London: Macdonald & Evans, 1975.

LABORIT, Emmanuelle. O voo da gaivota. São Paulo: Best Seller, 1994.

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MARTIN, John. A dança moderna: (Partes I e II). (2007). Proposições. vol.* 18, n. 1 (52): 229.

MARTIN, John. A dança moderna: (Partes III e IV). (2007). Proposições. vol. 18, n. 2 (53): 217.

MIRANDA, Regina. O movimento expressivo. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1980.

O Último Samurai (The Last Samurai): Direção: Eduard Zwick. Roteiro: John Logan; Eduard Zwick. Produção: Eduard Zwick; om Cruise. Música: Hans Zimmer. Fotografia: John Toll. Desenho de Produção: Lilly Kilvert. Figurino: Nigila Dickson. Edição: Victor Du Bois; Steven Rosenblum. Intérpretes: Tom Cruise; Ken Watanabe e outros. Hollywood (CA), Warner Bros, 2003 [E.U.A.]. (154min), sonoro, colorido, 35mm. Inglês.

PERRONE, Marcelo. Documentário “Gaga: O Amor Pela Dança” destaca a trajetória do coreógrafo israelense Ohad Naharim. Disponível em https://gauchazh.clicrbs.com.br/cultura-e-lazer/cinema/noticia/2017/04/documentario-gaga-o-amor-pela-danca-destaca-trajetoria-do-coreografo-israelense-ohad-naharin-9768045.html. 09/04/2017. Acesso em 20/11/2017

PIERIS, Aloysius. O diálogo inter-religioso e a teologia comparativa: uma perspectiva asiática. São Bernardo do Campo: Ed Nhanduti, 2008.

SACKS, Oliver. Vendo vozes: uma viagem ao mundo dos surdos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

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The Ugly Duckling Version DanceAbility

 

R. C. Migliorini

I am taking a DanceAbility‘s workshop held by Núcleo Dança Aberta. Physical diversity among persons, and how they can relate to each other despite it, or rather for that very reason, is the utmost concern of this workshop.

Although disability may be the quintessence of physical diversity, this work does not focus on that. It sees disability as something that embodies diversity but does not forget that people, whether disabled or not, are always unique. Therefore, for me, the most important trait of DanceAbility is the recognition that physical diversity acts upon movement so that it becomes unique as well.

It is interesting to note that even if body movement is DanceAbility’s prefered media, its classes start with a circle where people talk.

In one of these circles, it came about the issue of perception of persons with a severe “visual disability”. Would not it be good if the person with this eye condition decided to dance/move without glasses? When this issue came about, I did not feel like saying anything. However, now I do.

I have a very severe nearsightedness. It stabilized around – 22 diopters, which requires strong eyeglasses. I have worn them uninterruptedly from when I was four to my pre-teen years. During that time, they would get stronger every year, and when I was about ten, I tried to swap them for contact lenses. Nevertheless, I was not able to fit them.

It is normal to think that this happens only due to physical problems. However, in my case, it did because of a psychological impact.

Now, in general, spectacles stand for something negative, mainly when they are very strong and are in the face of a shy boy whose marks at school are excellent. This way, they are also a cause of bullying.

Nevertheless, they are also a shield or a mask of the sort. What do I mean?

I have very beautiful eyes (for Brazilian standards) that for years had been hidden behind thick lenses. All of a sudden, by clearing myself of my shield or my mask, I started to expose my eyes (and myself), and I simply was not prepared for that.

This way glasses, simultaneously correct a severe degree of myopia and protect one from the gaze of others. Then, when I got rid of my glasses, I began both, to call attention upon me because of the beauty of my eyes, and above all, to see the other persons looking at me. Yet, as I was still fragile inside, I could not bear this at all.

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Everyone would say this meant I was mad and it is great to be the school “nerd” one day and the handsome guy with the beautiful eyes the next. Ultimately, it is like being the ugly duckling. However, now I know that a huge inner shift is needed for one to transmute from an ugly duckling into the most beautiful swan of all. Unfortunately, the fairy tale does not tell us that, and as in my case the inner change did not happen, the outer one did not either.

Even so, to me, self-exposure was part of my plans, and the fact that I became a performing artist proves it.

Still, the stage brings on this sense of security, as in it the artist is relatively unaware of the audience’s gaze. I mean, its strong lights and architecture detach it from the audience. While it sees what happens over there, it rarely steps in. Therefore, it was comfortable for me to attract the other’s gaze from up there, as I still could not see all those persons looking me back.

Soon after graduating, I acquired a physical disability. In a way, it was like being turned into an ugly duckling again. As a result, if because of my glasses I had a serious problem with my self-image, a feeling that I thought I had overcome altogether, the disability worsened it so that I still do. Sometimes, I am very ashamed and crave for a shelter.

This flight from exposure though may generate stuttering speeches or hesitating actions, for instance, and consequently, misimpressions. In this case, it would be noxious. The artist practice counteracts it by inserting the person in this showplace, in a platform from where one to better play a role cannot hide. (It has just occurred to me that one of the artist’s role is to show oneself in the lighted arena while the audience comfortably sits in the dark).

Since DanceAbility welcomes all kinds of physicalities and their abilities, it also welcomes self-expression in its infinite ways. It enables self-exposure when it looks at different bodies and accepts them just as they are. It sees their beauty and substance. In other words, it deals with humans rather than with super-humans.

Then, together with other practices, it is metaphorically helping me to get rid of my glasses again.

P.S. Many people want to keep their “glasses” on. No problems. Sometimes, it is also positive. Moreover, DanceAbility welcomes them as well. Nevertheless, for my personal quest to keep covered is not an option, so I am well aware that it is my choice, and nobody else’s. So, do not take what I said as a rule. Perhaps DanceAbility’s golden rule is that everyone is free to make one’s own choices.

 


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O Patinho Feio versão DanceAbility

 

R. C. Migliorini

Eu estou fazendo uma oficina de DanceAbility com o pessoal do Núcleo Dança Aberta. Esta oficina pensa na diversidade corporal dos indivíduos e em como eles podem se relacionar apesar da diversidade; ou exatamente por sua causa.

No entanto, a deficiência não é o foco do trabalho. Ela é, sim, acolhida como algo que potencializa a diversidade, porém esta última já está presente entre uma pessoa e outra, não importando se alguma delas tem uma deficiência ou não.

O fundamental no DanceAbility, portanto, é o reconhecimento de que a diversidade se reflete no movimento, sendo que este é o meio de comunicação preferencial adotado em suas oficinas. Mesmo assim, em vez de ele ser introduzido no começo das aulas, o é só após uma roda de conversa.

Em uma delas surgiu o assunto da diferença perceptiva de se dançar com ou sem óculos quando a pessoa que fizer isso tiver um alto grau de “deficiência visual”. No momento em que surgiu este tópico, eu não quis me manifestar. Mas agora desejo fazê-lo. Então lá vai:

Eu tenho o que chamam de alta miopia. A minha estacionou com mais de 20 graus. Eu uso óculos desde que me conheço por gente e o fiz ininterruptamente dos quatro anos à pré-adolescência. Com uns dez anos eu tentei substitui-los por lentes de contato. Mas eu não me adaptei a elas.

Costuma-se pensar que a inadaptação acontece por questões apenas físicas, mas a minha foi devido a um impacto psicológico.

Ele se deu porque eu tenho olhos muito bonitos, do tipo que chamam a atenção. Entretanto, durante anos eles ficaram escondidos e o que aparecia eram os grossos óculos. Ora, em geral óculos simbolizam algo negativo, ainda mais se forem muito fortes e estiverem no rosto de um garoto tímido que tira notas altas na escola. Então, eles eram, além de tudo, pretexto de “bullying”.

Por outro lado, eles, assim como a alta miopia ou qualquer outra deficiência visual, também protegem o indivíduo do olhar alheio, pois a pessoa não os vê. Então, quando os tirei, passei, não só a chamar a atenção, mas, sobretudo, a ver o olhar dos outros sobre mim. Contudo, como por dentro eu continuava fragilizado, eu fui incapaz de sustentar o olhar alheio.

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Todos diriam que eu estava pirado e que é muito legal ser o “nerd” da escola até um dia e virar o galã dos belos olhos no dia seguinte. Enfim, ser o personagem principal de uma espécie de história do Patinho Feio. Porém, agora eu vejo que é necessária uma enorme mudança interna pra se transformar do Patinho Feio num lindo cisne real. Infelizmente, essa parte da história a lenda não conta. E como no meu caso essa mudança interna não aconteceu, a externa tampouco se consumou.

Mesmo assim, me expor estava nos meus planos, tanto que eu me tornei um artista de palco.

Contudo, o palco ainda perpetua essa sensação de segurança, pois, apesar de ser um espaço de exposição, mantém o artista relativamente afastado dos olhares do outro devido, por exemplo, às fortes luzes ou à arquitetura que torna o palco um espaço separado e, geralmente, inacessível ao público. Assim, de lá, eu achava confortável buscar o olhar do outro, pois eu seguia sem ver o outro me vendo.

Logo após ter me formado, adquiri uma deficiência física visível. Num certo sentido foi como voltar a ser o Patinho Feio. Tinhae e ainda tenho uma grande questão com a minha auto imagem. Em alguns momentos, tenho até um sentimento de vergonha que eu pensei que já houvesse superado.

Sinto também que essa fuga da exposição, do olhar do outro, pode ser nociva se aparecer numa fala hesitante ou em ações inseguras, por exemplo, e acabar gerando uma série de impressões erradas.

A prática artística traz a pessoa para um espaço de exposição, para uma arena onde ela tem que atuar e enquanto atua ela não pode se esconder. (Acabou de me ocorrer que um dos papéis do artista é, justamente, se expor na arena iluminada para o público poder ficar confortavelmente oculto na penumbra).

O método de DanceAbility, por conta do seu acolhimento do corpo, seja qual for, e da habilidade que esse corpo tiver, simplesmente dá licença para os infinitos caminhos da auto expressão dos, igualmente, infinitos corpos, venha à tona. Possibilita a exposição por permitir que esse corpo seja como é. Entende que ele é sempre belo e cheio de significados. Em outras palavras, lida com o ser humano, e não com o super-humano que não existe na vida real.

Metaforicamente, se une a outras práticas, para, no meu caso, me ajudar a tirar os óculos outra vez.

P.S. Ficar de “óculos” ou oculto, pode ser ótimo pra muitas pessoas e o DanceAbility acolhe isso também. Porém, faço questão de assumir o meu lado pessoal aqui. Pra mim não é.

 


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Tama – Kiwi film where the haka is a breaker of the communication barrier

Mais/More: http://www.radionz.co.nz/concert/programmes/upbeat/audio/201854087/the-sound-of-silence


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“Going on Crutches to Grenfell Tower after Ben Okri”

*If you want to see how the poor die, come see Grenfell Tower.*
A Nigerian summons me to London from the sea.
A Palestinian gives me directions from the south bank of the
river.
As I hesitate at the head of a plummeting escalator
two sharp-suited businessmen turn to help me
descend into the Underground.
It’s rush hour and the carriages are crammed.
Boarding the train, I shrug off my back pack,
tuck it with the crutches close to my body,
and grab the overhead rail, realising too late
all this is difficult, strains my weak arm;
as the force of the train rocks through me,
an Irishman asks if I need help.
‘I’m okay’, I say, and lurch against the door.
Quietly, in a gesture that reminds me
of the formal way South Koreans offer money,
he grips my elbow, holds my arm
between Waterloo and Westminster —
to keep him upright, he laughs
before he hops off
and I take his place by the plexiglass partition
with its yellow vertical grab-rail.
‘Will someone give this lady a seat?’
a man asks. Not a single person looks up.
Only one of my fellow passengers is asleep.
‘Charming,’ I murmur. The man repeats his question
and a woman stands, without a word or a glance.
I sit. I have taken her seat,
her prized rush hour seat,
but I needed to sit.
I felt unsafe on my feet.
If you want to see how the poor die, come see Grenfell Tower.
At Baker St Station it strikes me
that heeding the call of the poet
wasn’t, perhaps, such a great idea.
As I teeter down a flight of stairs
a train arrives at the platform below me,
and disgorges a sea of people,
a flood of people rising toward me,
filling the stairwell, shoulder to shoulder.
one solid mass, an interminable force
I can’t thread my way through or bypass.
Neither can I turn around and go back.
I have to wait on the step
as people push past me,
and though my mind knows
that this muscular wave will soon pass,
I feel guilty for waiting.
For taking up space. For taking up time.
I feel stupid for thinking I could cross London on crutches.
I feel I shouldn’t have come.
I am no Biblical cripple.
I am not journeying to meet Christ.
I don’t need to be another Grenfell gawker.
I need step-free access
to a train home to Brighton.
But just as I realise
how foolish I’ve been, I see
that a small miracle is occurring:
people have noticed me,
are pressing closer together,
and a path has appeared
a narrow, shining hemline
along the edge of the stairs:
an invitation to continue.
Hugging the wall, I step
on down to the platform
as the physiotherapist taught me:
‘Good foot to heaven,
bad foot to hell.’
*
On the Circle line, a petite Black woman
smiles, jumps up, insists I sit,
and tells me about her corrected fourth toe.
She disembarks at Royal Oak,
and a couple from Colorado get on,
the woman curious about how long I have to go . . .
and before I know it, the train isn’t underground anymore,
we are rushing over grey streets and grey parks
and council estates, beneath a dull white sky,
and then we are there, at Latimer Road,
and before the train has even pulled into the station
it is there too. Right there,
through the window, watching us
with its hundreds of burned-out eyes.
Watching us go on with our lives.
Watching us speed through its shadow,
or stop and alight and enter its radius . . .
to go to work in a crime scene,
to come home to a war zone
or to make an unsteady pilgrimage
to a place we would normally zoom past.
If you want to see how the poor die, come see Grenfell Tower.
They greet me at the turnstiles.
Their faces are everywhere.
From walls, church railings, shop windows, telephone kiosks,
above the stiff queues of flowers,
the perfume of stargazers and rot,
their beauty radiates; an intolerable heat.
The honey-skinned mother and her five year-old daughter.
The Muslim couple and their baby.
The two young Italians.
A curly-haired girl, on the cusp of her womanhood,
Women in bright sweaters, bold prints, smiles and hijabs,
older men clad in dignified solitude.
Steven, also known as Steve.
Mohammed from Syria . . . please sign the petition.
Poster after poster, please call . . .
If you see . . .
And behind the telephone kiosk,
that plastered pillar of love,
with its poems and prayer calls
and white paper butterflies,
behind the viaduct
with its incessant trains,
behind the vinyl banner
on the brick-clad new build –
‘Considerate Constructors
Secure Everyone’s Safety’:
It rises.
The blackness.
The blackness
I have hobbled here
to stare at
as if nothing else exists.
The blackness
I will never forget.
For there is nothing blacker
than the windows
of Grenfell Tower
Not the niqab of the young woman
at the traffic lights
whose dark darting eyes
are the essence of light,
not the black plastic boot
that protects my shattered ankle,
not the black shell of my laptop
on which I’m writing this poem,
or the fascia of my BlackBerry phone
with which I took grainy photos
of the burned out windows
of Grenfell Tower,
photos that fail
to show those windows
as they are:
blackness as void.
Cosmic blackness.
The unfathomable blackness
we come from and return to.
Absolute blackness.
Cordoned off by red and white ribbons
Guarded from gawpers
by police in florescent jackets,
but impossible to cover up,
impossible to hide,
yet impossible to approach,
until a man strides by me,
stops up ahead on the pavement
and raises his arms.
Pale, grey-haired, in a grey shirt,
his arms lifted to the Tower
in an open-palmed V
for veneration
he appears to be praying.
mourning, giving healing,
sending love to Grenfell Tower,
communing with the spirits,
he tells me,
of his neighbours
who went to school with his children,
who didn’t want to leave this way
whose agony lodges in his throat,
whose vanished beauty shines from his eyes.
*
If you want to see how the poor die, come see Grenfell Tower
Yes, Grenfell Tower is a mass grave,
a mausoleum, a crematorium.
It commands our silence.
But go and see it.
Go and see Britain’s black omphalos,
the navel of our failure
to take care of each other.
Go and see London’s real Olympic Torch
our charred trophy of arrogance, greed and contempt,
a monument to everything this country’s leaders do best:
scoffing at basic safety procedures,
ignoring experts’ advice,
flouting regulations, cutting corners
for the sake of padding bank accounts,
promising improvements, delivering death traps,
telling critics to ‘get stuffed’,
never consulting, never respecting
the people they are paid to represent:
people deemed a nuisance and an eyesore,
a blight on property values,
a threat to ‘social order’,
whose lives are not worth the paper
their missing posters are printed on,
whose inevitable incineration
has been planned, approved and fully costed,
whose grief and rage and anguish
must be micromanaged
with a drip feed of numbers,
a narrowing of remits,
a stealthy adjournment of truth.
But the truth cannot be hidden,
the truth is there for all to see.
Yes, go see Grenfell Tower.
Go by tube, bus, car, taxi, bicycle,
wheelchair, skateboard, roller blades,
tap the pavement with white canes, with crutches.
Go and see it. Take flowers, food and clothes.
Leave a message at St Clements.
Go and see Kensington’s anti-Kaaba,
its site of sacred devastation
rising in every direction we face.
And if you cannot go,
wherever you may be, however frail or far,
let us all, in our hearts,
stand with the disappeared,
and stand with the survivors,
let us stand with the uncounted, the discounted,
at the top of the stairs
on the twenty-fourth floor,
let us demand those responsible
for this preventable inferno
stop their frantic climbing
over Grenfell’s broken bodies,
through Grenfell’s tower of ashes,
over stacks of contracts, legal documents,
to a safety and freedom
they do not deserve.
And as the faces of the missing fade
into the black flames of memory,
by the candles of our witness
let us light
a clear broad path
to justice on the street.
With its hundreds of burnt out eyes,
from its unfathomable void,
Grenfell Tower is watching us.
We cannot fail again.
Naomi Foyle

A radionovela como proposta de Arte-terapia com deficientes visuais

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KOPELMAN, C. G. e MIGLIORINI, R. C. A radionovela como proposta de Arte-terapia com deficientes visuais.   In: FRANCISQUETTI, A. A. (Org). Arte-reabilitação: um caminho inovador na área da Arteterapia. p. 201-220. Rio de janeiro, Wak Editora, 2016 (ISBN 978-85-7854-379-2)

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