O Centauro Ferido/Roda de Cura

Arte, saúde e seres híbridos: transgressões e integrações de fronteiras

Homespun Wigs for Little Cancer Fighters

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https://themagicyarnproject.com/

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Via Jaci Arantes Cestari

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The Tatooist – New Zealander Film

Plot

Jake Sawyer (Jason Behr) is a global wanderer and tattooist who explores ethnic themes in his designs. While visiting Singapore to sell his craft at a local trade show, he swipes an ancient Samoan tattoo tool. After flying to New Zealand to resume his art, he meet up with a lovely Samoan woman named Sina (Mia Blake) and discovers the local Samoan culture. But Jake slowly learns that his stolen tool ends up unleashing an evil avenging spirit whom targets all of the customers that Jake has given tattoos to since his theft of the tool. While attempting to learn pe’a, the Samoan tradition of tattooing, Jake soon realizes that Sina is imperiled when she gets a tattoo from him and he must find a way to save her, and himself.


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The Ugly Duckling Version DanceAbility

 

R. C. Migliorini

I am taking a DanceAbility‘s workshop held by Núcleo Dança Aberta. Physical diversity among persons, and how they can relate to each other despite it, or rather for that very reason, is the utmost concern of this workshop.

Although disability may be the quintessence of physical diversity, this work does not focus on that. It sees disability as something that embodies diversity but does not forget that people, whether disabled or not, are always unique. Therefore, for me, the most important trait of DanceAbility is the recognition that physical diversity acts upon movement so that it becomes unique as well.

It is interesting to note that even if body movement is DanceAbility’s prefered media, its classes start with a circle where people talk.

In one of these circles, it came about the issue of perception of persons with a severe “visual disability”. Would not it be good if the person with this eye condition decided to dance/move without glasses? When this issue came about, I did not feel like saying anything. However, now I do.

I have a very severe nearsightedness. It stabilized around – 22 diopters, which requires strong eyeglasses. I have worn them uninterruptedly from when I was four to my pre-teen years. During that time, they would get stronger every year, and when I was about ten, I tried to swap them for contact lenses. Nevertheless, I was not able to fit them.

It is normal to think that this happens only due to physical problems. However, in my case, it did because of a psychological impact.

Now, in general, spectacles stand for something negative, mainly when they are very strong and are in the face of a shy boy whose marks at school are excellent. This way, they are also a cause of bullying.

Nevertheless, they are also a shield or a mask of the sort. What do I mean?

I have very beautiful eyes (for Brazilian standards) that for years had been hidden behind thick lenses. All of a sudden, by clearing myself of my shield or my mask, I started to expose my eyes (and myself), and I simply was not prepared for that.

This way glasses, simultaneously correct a severe degree of myopia and protect one from the gaze of others. Then, when I got rid of my glasses, I began both, to call attention upon me because of the beauty of my eyes, and above all, to see the other persons looking at me. Yet, as I was still fragile inside, I could not bear this at all.

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Everyone would say this meant I was mad and it is great to be the school “nerd” one day and the handsome guy with the beautiful eyes the next. Ultimately, it is like being the ugly duckling. However, now I know that a huge inner shift is needed for one to transmute from an ugly duckling into the most beautiful swan of all. Unfortunately, the fairy tale does not tell us that, and as in my case the inner change did not happen, the outer one did not either.

Even so, to me, self-exposure was part of my plans, and the fact that I became a performing artist proves it.

Still, the stage brings on this sense of security, as in it the artist is relatively unaware of the audience’s gaze. I mean, its strong lights and architecture detach it from the audience. While it sees what happens over there, it rarely steps in. Therefore, it was comfortable for me to attract the other’s gaze from up there, as I still could not see all those persons looking me back.

Soon after graduating, I acquired a physical disability. In a way, it was like being turned into an ugly duckling again. As a result, if because of my glasses I had a serious problem with my self-image, a feeling that I thought I had overcome altogether, the disability worsened it so that I still do. Sometimes, I am very ashamed and crave for a shelter.

This flight from exposure though may generate stuttering speeches or hesitating actions, for instance, and consequently, misimpressions. In this case, it would be noxious. The artist practice counteracts it by inserting the person in this showplace, in a platform from where one to better play a role cannot hide. (It has just occurred to me that one of the artist’s role is to show oneself in the lighted arena while the audience comfortably sits in the dark).

Since DanceAbility welcomes all kinds of physicalities and their abilities, it also welcomes self-expression in its infinite ways. It enables self-exposure when it looks at different bodies and accepts them just as they are. It sees their beauty and substance. In other words, it deals with humans rather than with super-humans.

Then, together with other practices, it is metaphorically helping me to get rid of my glasses again.

P.S. Many people want to keep their “glasses” on. No problems. Sometimes, it is also positive. Moreover, DanceAbility welcomes them as well. Nevertheless, for my personal quest to keep covered is not an option, so I am well aware that it is my choice, and nobody else’s. So, do not take what I said as a rule. Perhaps DanceAbility’s golden rule is that everyone is free to make one’s own choices.

 


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O Patinho Feio versão DanceAbility

 

R. C. Migliorini

Eu estou fazendo uma oficina de DanceAbility com o pessoal do Núcleo Dança Aberta. Esta oficina pensa na diversidade corporal dos indivíduos e em como eles podem se relacionar apesar da diversidade; ou exatamente por sua causa.

Como a deficiência potencializa a diversidade ela parece ser o foco do trabalho. No entanto, não é bem assim. Ela é, sim, muito bem acolhida, porém o foco do trabalho é a diversidade, sendo que ela já está presente entre uma pessoa e outra, não importando se alguma delas tem uma deficiência ou não.

O fundamental no DanceAbility, portanto, é o reconhecimento de que a diversidade se reflete no movimento, sendo que este é o meio de comunicação preferencial que adota. Mesmo assim, em vez de ser introduzido no começo das aulas, ele o é só após uma roda de conversa.

Em uma delas surgiu o assunto da diferença perceptiva de se dançar com ou sem óculos quando a pessoa que fizer isso tiver um alto grau de “deficiência visual”. Ela deveria ou não dançar sem óculos? Esse tópico gerou uma grande discussão, mas naquele momento, eu não quis me manifestar. Porém, agora desejo fazê-lo. Então lá vai:

Eu tenho o que chamam de alta miopia. A minha estacionou com mais de 20 graus. Eu uso óculos ininterruptamente desde que me conheço por gente, dos quatro anos à pré-adolescência. Com uns dez anos eu tentei substitui-los por lentes de contato. Mas eu não me adaptei a elas.

Costuma-se pensar que a inadaptação às lentes acontece por questões apenas físicas, mas a minha foi devido a um impacto psicológico.

Ela se deu porque eu tenho olhos muito bonitos, do tipo que chamam a atenção. Entretanto, durante anos eles ficaram escondidos e o que aparecia eram os grossos óculos. Ora, em geral óculos simbolizam algo negativo, ainda mais se forem muito fortes e estiverem no rosto de um garoto tímido que tira notas altas na escola. Então, eles eram, além de tudo, pretexto de “bullying”.

Por outro lado, eles, assim como a alta miopia ou qualquer outra deficiência visual, também protegem o indivíduo do olhar alheio, pois a pessoa não o vê. Então, quando tirei os óculos, passei, não só a chamar a atenção, mas, sobretudo, a ver o olhar dos outros sobre mim. Contudo, como por dentro eu continuava fragilizado, eu fui incapaz de sustentar o olhar alheio.

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Todos diriam que eu estava pirado e que é muito legal ser o “nerd” da escola até um dia e virar o galã dos belos olhos azulaços no dia seguinte. Enfim, ser o personagem principal de uma espécie de história do Patinho Feio. Porém, agora eu vejo que é necessária uma enorme mudança interna pra se transformar do Patinho Feio num lindo cisne real. Infelizmente, essa parte da história a lenda não conta. E como no meu caso essa mudança interna não aconteceu, a externa tampouco.

Com óculos ou sem óculos, todavia, me expor estava nos meus planos, tanto que eu me tornei um artista de palco.

Contudo, como vim a descobrir, o palco ainda perpetua essa sensação de segurança, pois, apesar de ser um espaço de exposição, mantém o artista relativamente afastado dos olhares do outro devido, por exemplo, às fortes luzes ou à arquitetura que torna o palco um espaço separado do público e, geralmente, inacessível a ele. Assim, de lá, eu achava confortável buscar o olhar do outro, pois eu seguia sem ver o outro me vendo.

Enquanto eu lidava com isso, pois nessa carreira também existem situações na qual o bailarino dança cara-a-cara com o público — o que relativiza tudo que eu disse acima, quis o destino que eu adquirisse uma deficiência física visível. Em um certo sentido foi como voltar a ser o Patinho Feio. Tinha e voltei a ter uma grande questão com a minha auto imagem. Em alguns momentos, tenho, por exemplo, um grande sentimento de vergonha, que eu pensei que já houvesse superado.

Sinto também que essa fuga da exposição, do olhar do outro, pode ser nociva se aparecer numa fala hesitante ou em ações inseguras, por exemplo, e acabar gerando uma série de impressões erradas.

A prática artística traz a pessoa para um espaço de exposição, para uma arena onde ela tem que atuar e enquanto atua ela não pode se esconder. (Acabou de me ocorrer que um dos papéis do artista é, justamente, se expor na arena iluminada para o público poder ficar confortavelmente oculto na penumbra).

O método de DanceAbility, por conta do seu acolhimento do corpo, seja qual for, e da habilidade que esse corpo tiver, simplesmente dá licença para que os infinitos caminhos da auto expressão dos, igualmente, infinitos corpos, venha à tona. Possibilita a exposição por permitir que esse corpo seja como é. Entende que ele é sempre belo e cheio de significados. Em outras palavras, lida com o ser humano, e não com o super-humano que não existe na vida real.

Para, unindo-se e a outras práticas, me ajudar a tirar os óculos outra vez.

P.S. Ficar de “óculos” ou oculto, pode ser ótimo pra muitas pessoas e o DanceAbility acolhe isso também. Porém, faço questão de assumir o meu lado pessoal aqui. Pra mim não é.

 


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O pneu furado do bonde do Faustão

R.C.Migliorini

Acabei de ver o quadro “A dança dos famosos”. O quadro propõe ritmos e estilos de dança diferentes que todos devem executar. No entanto, é raro uma única pessoa ter um desempenho ótimo em todos eles.

Tomemos o exemplo do funk. Vários famosos com cerca de quarenta ou cinquenta anos falaram que nunca haviam dançado esse estilo e nenhum deles foi bem ao dançá-lo. Ora, o funk não favorece essa faixa etária; É uma dança criada por jovens e para jovens. O figurino usado é de jovens e a dança exalta a beleza física e a força atlética de jovens. A plateia aplaudiu de pé um artista mais velho que tentou demonstrar esses atributos. Já eu acho tudo isso bizarro e humilhante.

Em contraponto, lembro-me do tango dançado por Cristiane Torloni. O artista bastante jovem que competia com ela ficou em segundo lugar. Atleticamente ele se sobressaia a ela, mas não era isso que estava em questão. Além da maturidade exigida pelo tango, faltava-lhe um corpo tão anatomicamente adequado para essa dança quanto o dela. Se naquele dia o ritmo escolhido fosse o funk, o resultado seria inverso.

Ontem, neste mesmo quadro, falou-se da necessidade da desconstrução de modelos antigos para criação do novo. Logo em seguida foi divulgado um livro que defendia o que chamava de moda intuitiva, ou seja, a necessidade de não se copiar os ícones da moda sem nenhuma crítica.

No caso da sensualidade requerida pelo funk, a de uma pessoa de quarenta ou cinquenta é diferente do que a de uma pessoa de vinte. Um corpo bem acima do peso também pode ser sensual, mas ao buscar essa sensualidade como faz alguém com um corpo que não seja obeso, é ridículo.

A pessoa criativa pode ser sensual, segura e transmitir sua força vital, porque gosta do seu corpo, da sua profissão e de si. Daí não precisa ficar travada, ou transmitir a imagem de alguém com autoestima baixa, porque não teima em espelhar-se nos outros e em enxergar em si apenas desvantagens. Assim, creio que esse bonde levaria muito mais pessoas se, em vez de colocá-las todas no mesmo saco, as levasse a ver sua particularidade e beleza individual.

Contudo, já que ele não faz isso, façamos nós: tentemos veicular a imagem do poder da pessoa criativa. De certa forma, para isso basta imaginar a Cristiane Torloni dançando funk vestida com as roupas e exibindo os modos de uma adolescente poposuda.

agosto de 2013