CMON – Cave of Monsters / AMTRO – Aliança dos Monstros

Trespassing of Boundaries and Unification of Differences Through Art


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Alpinismo e reabilitação: um diálogo

Baseado em texto dedicado a Vitor Negrete, amigo e alpinista (In memorian).

 

Como leigo em matéria de alpinismo, sei sobre o assunto apenas o que vi e ouvi em filmes, revistas ou conversas. Entretanto, atrevo-me a falar sobre o assunto nos meus termos, ou seja, de acordo com as minhas percepções pessoais,

Lembro-me que nos tempos de graduação eu ficava fascinado ao ver do ônibus colegas de universidade escalando uma das paredes externas da Faculdade de Educação Física. Acho que, desde aquela época, eu pressentia a semelhança entre andar e escalar.

Certa vez, ouvi alguém comentar que para ultrapassar uma pedra (ou garra, se bem me recordo do jargão usado para designar as pedras artificiais presas no paredão) e chegar à outra, equilíbrio era necessário.

A palavra “equilíbrio” chamou minha atenção, pois eu achava que escalar era uma questão de força ou de habilidades outras que não o equilíbrio, e até aquele momento eu nunca havia pensado na necessidade dele quando nos apoiamos nas duas mãos e nos dois pés ao mesmo tempo, como quase sempre ocorre na escalada.

Contudo, para escalar, a pessoa geralmente tem de empurrar as garras de baixo com os pés, e puxar as de cima com as mãos. Como as garras não se movem, são as pernas que se esticam e os braços que se flexionam fazendo o corpo galgar a parede de escalar. Quanto mais rente ao paredão o tronco ficar durante essa movimentação, melhor, pois caso a pessoa o afaste da parede, perderá o equilíbrio e cairá. Isso será relativamente fácil se ela começar uma escalada apoiando-se simultaneamente em quatro garras: uma mão e um pé em cada uma. Não obstante, a dificuldade aumentará se em outro ponto ela apoiar os dois pés em uma mesma garra e as duas mãos em outra. Certamente força é muito importante, mas o alpinista sempre deverá manter o tronco o mais rente possível da parede.

Para fazer movimentos semelhantes estando em um plano horizontal, e não em uma parede vertical, seria preciso ficar de gatinhas como um animal de quatro patas. Depois, para dificultar, diminuir gradualmente o número de apoios: primeiro, apoiar-se nos dois pés e em uma mão, depois, nas duas mãos e em um pé, em seguida, no pé e na mão de lados opostos do corpo e, finalmente, na mão e no pé do mesmo lado. Esticar braços e pernas, ou encolhê-los e aproximar mão e pés do corpo também influi no equilíbrio.

Pois há um exercício de equilíbrio em fisioterapia exatamente assim — e não é nem um pouco fácil.

Ora, olhando mais de perto para o alpinista e para o paciente de fisioterapia, percebemos que ambos têm a mesma necessidade de equilíbrio em seu movimento básico. Podemos, então, imaginar em seus movimentos uma escala ou um aumento gradativo de dificuldade para manter o equilíbrio conforme o tronco se afasta do chão e ganha altura e conforme os apêndices do corpo se movem. Essa lógica permanece inalterada, esteja a pessoa em um plano vertical ou horizontal. O mesmo acontece com animais, plantas ou construções, e para dar um exemplo, é possível falar do equilíbrio de um edifício muito alto, das raízes largas que formam uma boa base para uma árvore ou de um macaco-aranha que anda em paredes rochosas tão agilmente quanto se estivesse no chão.

Em minha opinião, a sabedoria que o alpinista adquire no confronto de suas intenções e corpo com o meio, e os consequentes movimentos que precisa realizar para conseguir alcançar seu intento — que é escalar —, assemelham-se, em muito, à sabedoria que a pessoa precisa adquirir a fim de andar ou reabilitar-se.

Seriam diferentes os espaços em que atuam? Certamente, bem como a necessidade de refinar mais ou menos a percepção corporal de cada um de acordo com suas intenções, seja ela subir uma montanha ou uma rua asfaltada. Mas os princípios que lhes regem os movimentos são os mesmos.

Assim acredito que se fôssemos flexíveis, humildes, tolerantes e soubéssemos respeitar um conhecimento diferente do nosso, não apenas trocaríamos mais informações, mas também aprenderíamos mais uns com os outros. E talvez nesse diálogo descobríssemos mais pontos em comum do que pensávamos.

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TENSIONAR NÃO É PRECISO

texto escrito em 2013 para o site fãs da psicanálise. Revisado e republicado em 2017

R. C. Migliorini

Este é o primeiro texto do ano. Contudo, ele não é tão próprio para esta época, pois nele apenas menciono que coisas maravilhosas aconteceram em 2013. Embora elas tenham tido continuidade neste início de 2014 que, portanto, já começou bem, algumas, muito necessárias, ainda não aconteceram. Deste modo, por mais que eu tente, relaxar é bem difícil.

Falo aqui do relaxamento porque já faz algum tempo que eu estou com a palavra na mente. Conquanto eu já tenha escrito sobre o assunto, por ele me parecer bem importante e ainda não ter sido esgotado, resolvi prosseguir com ele.

Apesar do meu interesse no tema ser bastante atual, pode-se dizer que sua semente foi plantada há muito tempo, pois quando eu era pequeno fiz ludo-terapia e uma das técnicas usadas ali era o relaxamento. Foi a partir daí que eu comecei a gostar da coisa, até porque naquela época relaxar fez muito bem a mim. Depois, ao longo da vida eu voltei a me deparar com o procedimento inúmeras vezes, e voltei a fazê-lo na prática somática que adotei, já que, invariavelmente, todas as atividades corporais que agregam mente e corpo usam bastante o relaxamento.

Assim, venho me perguntando sobre a sua função em contextos de cura.

Especificamente sobre terapias somáticas, Martha Eddy em “A brief history of somatic practices and dance” diz que nessas práticas as pessoas dedicam-se a “ouvir o corpo”, em geral começando com o relaxamento consciente no chão ou em mesa de massagem. A partir deste estado de redução de gravidade são orientadas a prestar atenção nas sensações corporais que brotam do seu interior e a se movimentar delicada e lentamente para adquirir uma consciência mais profunda do “self” que se move.

Aí estão algumas pistas: relaxar significa aquietar corpo e mente para ouvi-los e ouvir-se a si mesmo. Em geral, isso é algo que nossa cultura e nosso estilo de vida nos impedem de fazer. Se a cisão conosco mesmo começa assim, relaxar, embora pareça o extremo da passividade, é uma forma ativa de começar a restaurar a nossa integridade.

Sendo assim: relaxar, é preciso.

Vídeo de Rogerio Migliorini

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Fico impressionado por este tipo de vídeo, porque mostra como o pé humano é capaz de desenvolver habilidades “manuais” de coordenação finíssima. Não se trata de um pé especial, sobrenatural ou diferente do meu, e nem foi super treinado por uma técnica científica de altíssima complexidade, mas pelo uso do dia-a-dia. Simples assim!

This kind of video strikes me because it shows how humans are able to develop amazing skills out of nothing. It’s not talking about special persons, supernatural beings, or x-men. Not even about an skill that was trained trough a highly scientific and complex technique. It shows an ordinary skill that was developed though the ordinary use of our plain body. It shows how we are powerful with what we already have. Just that!

Via Reinaldo César Branco

On the artist’s stand

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When I was fit and young I wouldn’t have the guts to pose nude for artists. Now that I’m fifty and disabled, I do. And surprisingly enough I’m getting called  by the artists to pose other times.  I guess it’s the healing power of maturity.

Quando eu estava em forma e era jovem eu não teria coragem de posar nu para artistas. Agora que tenho 50 anos e deficiência física, essa coragem existe. E surpreendentemente eu estou sendo chamado pelos artista pra fazer outros trabalhos. Deve ser o poder curativo da maturidade.

Artistas: Rubi, Ernandes Silva, Geraldo Larentino, Marcelo Parra

Modelo: Rogério Migliorini

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