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Trespassing of Boundaries and Unification of Differences Through Art

Rolar

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Abraço coletivo

R.C.Migliorini

Quem segue esse blog sabe que saúde do corpo e forma física associados à arte importam tanto pra mim que eu escolhi dedicar minha vida a eles. Sabe também que logo após eu ter me formado em dança, o lado esquerdo do meu corpo ficou parcialmente paralisado por causa de uma sequela cirúrgica.

Com tal desfecho, essa decisão ficou bem mais complicada, é claro. Contudo, mais de vinte anos depois, continua valendo. Talvez eu já devesse ter desistido, afinal já não sou mais jovem. Porém, fazer o quê se eu sou, no mínimo, teimoso?

Há muito tempo, em uma crise inicial da doença que me levou à cirurgia, eu preparava minha festa de aniversário. Ao comprar refrigerantes, eu conversava com o vendedor com a mão direita em cima do balcão do bar. Enquanto isso, eu escondia atrás das minhas costas a esquerda que, em espasmos, ganhara vida própria e se mexia como uma aranha.

Desde então, passei a evitar ações que expusessem meu corpo “torto”, pois a sequela resultou em uma patologia que aparece mais quando eu me movo. Quando estou parado, pouca gente a percebe. Sendo assim, eu procurava não estender o braço, não caminhar, não cair, não tropeçar em público. Se isso fosse inevitável, eu ocultava ou disfarçava o ato de algum modo.

As minhas ações de camuflagem aumentavam de intensidade se o público fosse de gente atlética, de pessoas com uma grande habilidade de movimento, ou ainda de colegas que atuassem ou dançassem.

Porém, não demorei muito a perceber que esse meu modo de agir prejudicava ainda mais meu corpo, meus movimentos e minha interação com o mundo. Enfim, basicamente comprometia minha segurança e autoestima.

Foi então que um dia, conversando com um rapaz com uma paralisia cerebral grave, vi como ele ficava feliz de ir a um bar com os seus amigos. Não importava que, por ser cadeirante, ele não pudesse subir a escadaria de acesso ao bar nem que fosse carregado escada acima. Muito menos importava sua dificuldade na articulação de palavras e que ele precisasse repetir seu pedido inúmeras vezes – isso depois do garçon ser convencido de sua capacidade de fazê-lo por si mesmo. Ele nem levava em conta sua descoordenação na hora de estender a mão pra chamar a atenção, pegar ou apontar qualquer coisa.

Já que sua deficiência era totalmente visível, aquele rapaz não podia esconder nada nem evitar qualquer ação em público. Mesmo que ocultasse seu braço afetado, o outro, igualmente afetado, teria que ser exibido. Sob a pena de jamais se comunicar verbalmente, não podia emudecer para encobrir uma fala disártrica. Tinha que encarar com tranquilidade ser carregado escada acima até o salão lotado. Porém, em vez de envergonhado e retraído ou achar que estava sendo exposto, apesar de tudo ele ficava feliz por estar com os amigos.

Comecei, então, a pensar em vergonha, exposição, diferenças e limites.

Como eu disse, ambientes de malhação, de grande atividade esportiva e de exibição de corpos malhados, passaram a me inibir muito depois da cirurgia. Porém, em função da conversa com o meu amigo, comecei a encarar esse ambiente e esses corpos de modo diferente.

Eu morria de vergonha de simplesmente andar na frente dos outros. Atualmente, eu até corro nas aulas da academia, ainda que com isso a minha descoordenação fique bem mais evidente. Antes eu evitava movimentar a mão esquerda; hoje me vi na sala de musculação esfregando o rosto com essa mão. Em suma, percebo aí pequenas conquistas.

Eu não estaria correndo nas aulas, ou esfregando a mão esquerda no rosto, se não estivesse me permitindo pagar mais micos, reaprendendo como interagir com as pessoas, aceitando ser o mais desengonçado da sala.

Tampouco estaria me expondo desse jeito se a minha habilidade de rir de mim mesmo não houvesse aumentado. E, pasme: a minha capacidade de rir com os outros também.

Sendo assim, ganhos vieram daí: além dos psicológicos, como melhora da autoestima e aumento da segurança, os físicos. Foi essa exposição que me possibilitou começar a ir em um ambiente em que profissionais, atividades e frequentadores focam o trabalho com o corpo e seus movimentos. Até jiu-jitsu eu estou fazendo.

Sobre o último, eu coloquei a palavra Awhi (pronunciada áfi) na minha faixa. Ela é uma palavra do povo maori da Nova Zelândia, que significa abraçar, acolher, aceitar, louvar e, em tradução livre, porque não encarar? Pra completar, soube que um dos povos do Xingu diz que, quando caímos é porque o chão quer abraçar a gente. Assim, meus respeitos aos chãos e aos tatames da vida. Graças aos abraços de e em um tatame estou encarando e abraçando cada vez mais, assim como cada vez mais sendo abraçado por pessoas, corpos ou movimentos.

Não importa se são meus, dos outros ou seus. O fato é que esse abraço coletivo está ficando cada vez maior – e melhor!

ago 2019

textos relacionados: <https://rodadecura.wordpress.com/2017/10/04/o-patinho-feio-versao-danceability/> < https://wordpress.com/block-editor/post/rodadecura.wordpress.com/1837 >


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How to Use Maori Weaponry

Em vez de traduzir os vídeos, “Como usar as armas Maoris, partes 1 e 2”, preferi falar só do que me chamou a atenção neles: a integração que algumas vezes ocorre entre o bélico, o estético e o espiritual.

O filme já começa mostrando que há um grande cuidado artístico na confecção das armas maoris em geral.

Depois, focaliza a taiaha, salientando que ela passa por diversos artesãos, cada um especializado em uma arte.

Eles, então, a levam a lugares e rios sagrados para a impregnarem de força espiritual.

Como ancestral do guerreiro, a taiaha fala com ele, vê o espaço em volta dele e entra no campo de batalha com ele. Enfim, o protege.


A carranca nela esculpida, bem como a maneira de utilizar essa arma, têm uma razão de ser. Mais do que simples olhos entalhados na máscara que adorna a arma, eles veem. Veem o espaço em torno do guerreiro que a empunha e que está com o olhar fixo à frente.

Vendo o que o guerreiro não está enxergando, eles ajudam a taiaha a protegê-lo. Por isso, ele “varre” com ela todo o espaço em torno de si. A brande o tempo todo e a gira para todos os lados. Assim ela o transforma no homem de seis olhos.

Isso é invariável nas diversas ocasiões em que é usada, seja nos combates ou nos discursos rituais, como na arenga de boas-vindas feita a um visitante. Ali, ela apoia a fala do orador e amplia o seu domínio sobre o público.

O filme segue para o patu, uma arma curta, como o rakau. Mas entre uma e outra, não deixa de abordar o tewhatewha.

Esse também tem espírito sobrenatural, ancestrais e corpo. Instrumento de guerra afim à taiaha, nele o guerreiro carrega consigo a força e a essência de seus antepassados.


Em relação à exibição artística, um dos entrevistados do filme diz que a sua experiência em mostrar as artes e os rituais maori no palco, o preparou para se tornar um guerreiro na tribo da qual faz parte.

Por fim, o cineasta conclui que todas as armas são imbuídas de força vital, poder e espírito e que elas devem ser respeitadas por isso.

Assim, não é, por vezes, também estética e espiritual a arte da guerra?


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Alpinismo e reabilitação: um diálogo

Baseado em texto dedicado a Vitor Negrete, amigo e alpinista (In memorian).

 

Como leigo em matéria de alpinismo, sei sobre o assunto apenas o que vi e ouvi em filmes, revistas ou conversas. Entretanto, atrevo-me a falar sobre o assunto nos meus termos, ou seja, de acordo com as minhas percepções pessoais,

Lembro-me que nos tempos de graduação eu ficava fascinado ao ver do ônibus colegas de universidade escalando uma das paredes externas da Faculdade de Educação Física. Acho que, desde aquela época, eu pressentia a semelhança entre andar e escalar.

Certa vez, ouvi alguém comentar que para ultrapassar uma pedra (ou garra, se bem me recordo do jargão usado para designar as pedras artificiais presas no paredão) e chegar à outra, equilíbrio era necessário.

A palavra “equilíbrio” chamou minha atenção, pois eu achava que escalar era uma questão de força ou de habilidades outras que não o equilíbrio, e até aquele momento eu nunca havia pensado na necessidade dele quando nos apoiamos nas duas mãos e nos dois pés ao mesmo tempo, como quase sempre ocorre na escalada.

Contudo, para escalar, a pessoa geralmente tem de empurrar as garras de baixo com os pés, e puxar as de cima com as mãos. Como as garras não se movem, são as pernas que se esticam e os braços que se flexionam fazendo o corpo galgar a parede de escalar. Quanto mais rente ficar do paredão, melhor, pois caso a pessoa afaste muito o tronco da parede, perderá o equilíbrio e cairá. Isso será relativamente fácil se ela começar uma escalada apoiando-se simultaneamente em quatro garras: uma mão e um pé em cada uma. Não obstante, a dificuldade aumentará se em outro ponto ela apoiar os dois pés em uma mesma garra e as duas mãos em outra. Certamente força é muito importante, mas o alpinista sempre deverá manter controle do tronco.

Para fazer movimentos semelhantes estando em um plano horizontal, e não em uma parede vertical, seria preciso ficar de gatinhas como um animal de quatro patas. Depois, para dificultar, diminuir gradualmente o número de apoios: primeiro, apoiar-se nos dois pés e em uma mão, depois, nas duas mãos e em um pé, em seguida, no pé e na mão de lados opostos do corpo e, finalmente, na mão e no pé do mesmo lado. Esticar braços e pernas, ou encolhê-los e aproximar mão e pés do corpo também influi no equilíbrio.

Pois há um exercício de equilíbrio em fisioterapia exatamente assim — e não é nem um pouco fácil.

Ora, olhando mais de perto para o alpinista e para o paciente de fisioterapia, percebemos que ambos têm a mesma necessidade de equilíbrio em seu movimento básico. Podemos, então, imaginar em seus movimentos uma escala ou um aumento gradativo de dificuldade para manter o equilíbrio conforme o tronco se afasta do chão e ganha altura e conforme os apêndices do corpo se movem. Essa lógica permanece quase inalterada nos planos vertical e horizontal.

Permanece também quando se refere a animais, plantas ou construções. Assim, é possível falar do equilíbrio de um edifício muito alto, das raízes largas que formam uma boa base para uma árvore ou do equilíbrio de um macaco-aranha que anda em paredes rochosas tão agilmente quanto se estivesse no chão.

Em minha opinião, a sabedoria que o alpinista adquire no confronto de suas intenções e corpo com o meio, e os consequentes movimentos que precisa realizar para conseguir alcançar seu intento — que é escalar —, assemelham-se, em muito, à sabedoria que a pessoa precisa adquirir a fim de andar ou reabilitar-se.

Seriam diferentes os espaços em que atuam? Certamente, bem como a necessidade de refinar mais ou menos a percepção corporal de cada um de acordo com suas intenções, seja ela subir uma montanha ou uma ladeira. Mas os princípios que regem os movimentos de ambos são os mesmos.

Assim acredito que se fôssemos flexíveis, humildes, tolerantes e soubéssemos respeitar um conhecimento diferente do nosso, não apenas trocaríamos mais informações, mas também aprenderíamos mais uns com os outros. E talvez nesse diálogo descobríssemos mais pontos em comum do que pensávamos.

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