CMON – Cave of Monsters / AMTRO – Aliança dos Monstros

Trespassing of Boundaries and Unification of Differences Through Art

Pelo vale da sombra da morte (rev)

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 R. C. Migliorini

 “Eis que aprendi

Nesses vales onde afundam os poentes:

Afinal, tudo são luzes

E a gente se acende é nos outros.

A vida é um fogo,

Nós somos suas breves incandescências.”

(Mia Couto)

Eu andei bem borocochô nas últimas semanas. Talvez porque eu estivesse precisando de um afago, escrevi um texto chamado “O afago nosso de cada dia”. Coincidentemente, durante esse período eu passei pela primeira sessão de uma terapia somática que se utiliza muito de massagem, o que, entre outras coisas, valeu pelo afago. Ainda mais que ela foi presente de um amigo querido que é terapeuta e que, há muito tempo, eu não via. Essa técnica também usa muito o relaxamento. Como fazia muito tempo que eu não tinha sensações de férias, de relax, de abandono, de entrega, de curtição, de descompromisso, a sessão me deu um pouco dessas sensações.

Diante disso eu deveria estar contente, não? Até porque nesta, que foi a primeira sessão de uma série, experimentei sensações corporais não sentidas há duas décadas e, em decorrência, brotaram várias memórias. Eu fiquei bestificado, emocionado e com uma mistura estranha de alegria e tristeza. Passei uns dois dias pensando em morte e com a sensação de um hiato irrecuperável de vinte anos. Nada do que eu vivera tinha significado ou apontava para uma esperança. Minha vida me parecia mentirosa e ilusória: educação, colégios particulares, excelentes universidades, intercâmbio fora do Brasil, fluência escrita e falada em inglês, valores de uma família estruturadíssima e religiosa, amizades verdadeiras, amores vividos ou chorados, meu jeito de ser e por aí vai. Um passado oco, um presente vazio e um futuro vago. Porém, misturado a todo esse ceticismo, havia uma sensação de confiança na vida e de que tudo ia dar certo.

Ontem me vi respondendo comentários em uma comunidade voltada pra pessoas com hemiplegia. Há duas semanas, eu não conseguia escrever pra eles. Eu lia as queixas, as dúvidas e as incertezas e ficava deprimido. Agora eu respondia a tudo isso com palavras de carinho e bom-humor, conseguindo transmitir confiança, otimismo, e tranquilidade. Então, hoje acordei, com a sensação de que eu tinha passado mais uma vez pelo “vale das sombras da morte”, saído dele inteiro e voltado a curtir o sol. As minhas sensações tinham sido uma espécie de expurgo e de purificação. Como isso aconteceu? Foi isso mesmo? Eu não sei. Mas, parafraseando o Chicó do Alto da Compadecida, só sei que foi assim…

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Author: roda de cura

Um ex-artista de dança interessado na transgressão e integração de fronteiras pela arte. A former dancer interested in trespassing of boundaries and unification of differences through art.

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