centauros feridos

Blog que relaciona arte, movimento e cura.

O Curador

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Curador de ferimentos e curador de quadros. Qual seria a diferença entre os dois? Ou melhor, as semelhanças? Sabemos que a arte cura, porque a pessoa, ao dar forma a algo, organiza e expressa sentimentos que vão além da expressão verbal.

Uma semioticista e compositora me contou que, se perguntarmos a uma pessoa das ruas o que sente em determinado momento, ela talvez não saiba dizê-lo. Contudo, ao ouvir ou ver uma obra de arte, sua resposta muda por completo, quando ela reconhece que aquela imagem, aquele som ou aquelas metáforas correspondem exatamente ao que sente.

Certa professora de improvisação em dança, após ver o desempenho de um aluno ou de uma aluna que dançava em sua aula, podia dizer satisfeita que ele ou ela já sabiam dançar. O que isso queria dizer? Objetivamente, nada; subjetivamente, muito, pois ela se baseava em uma leitura do que não tinha sido expresso verbalmente, e fazia um comentário, em que o não verbal muito transcendia as palavras.

Esses são alguns exemplos do poder curador ou organizador da arte. Nas visuais, é um poder que se manifesta quando uma pessoa traça uma linha, escolhe uma cor, elege o material e opta pela técnica que vai usar. Também é esse o poder verificado quando alguém se identifica mais com essa ou aquela obra.

Esta exposição é curada, ou seja, organizada por um colecionador. Por que juntar e apresentar exatamente essas obras? Não importa. O admirável é o papel de intermediação que Pedro Hiller faz entre o público e as obras aqui exibidas. Favorece, assim, o contato de cada uma das pessoas que as vê com o que não é “verbalizável” nelas mesmas. As escolhas por ele feitas ecoam na geografia desconhecida da mente coletiva, que mais do que carregar consigo as intenções e expressões de Marcelo Grassmann, Ana Elisa Batista, George Gütlich, Vera Goulart e Paulo Sayeg, as ampliam. Em sua ação, une bordas de profundos canyons e abre passagem para vales desconhecidos com estradas e pontes traçadas por artistas experientes sobre matrizes de gravuras ou superfícies de papel, revelações de um mundo mágico criado pela manipulação de pontas secas, buris, goivas, ácidos, vernizes, bicos de pena, pincéis, tintas…

Rogério C. Migliorini junho/2012

Author: roda de cura

Um artista de dança interessado em arte, movimento e cura (vista de modo bem amplo). A former dancer interested in art, movement, and cure (seen in a very wide way).

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