Roda de Cura/Centauros Feridos

Arte e seres híbridos: transgressões e integrações de fronteiras

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Escultura de Spartak Dermendjiev

Sobre o blog

No início da minha carreira, reflexões sobre um monstro da ficção – nosso conhecido Frankenstein –, originaram uma peça que posteriormente gerou o livro intitulado Curadores feridos e outros frankensteins (leia partes dele em português e inglês em Livros/Books, Livro e Book ou solicite-o em formato impresso ou ebook clicando na imagem abaixo).

Entre uma e outro, eu fiz uma cirurgia neurológica e, em decorrência, fiquei com uma sequela motora em metade do meu corpo. Talvez porque eu fosse dançarino, o acontecimento me afetou bastante, de forma que o associei à peça e passei a ver meu corpo como “frankensteiniano”.

Entre uma e outro, também fiz um mestrado na área de humanas. No programa eu me deparei com questões como contemporaneidade, hibridismo e espaços fronteiriços, bem como com leituras sociais e antropológicas sobre saúde, doença e cura.

Percebi, então, intersecção profícuas entre as questões surgidas na graduação e na pós-graduação. Isso reforçou a ideia de eu lidar com monstros e seres híbridos.

Foi o que eu fiz, e passei a pensar em doença e cura de modo amplo e metafórico. Daí, para mim a palavra “doença” refere-se aos embates entre aspectos conflitantes que aparecem em um único corpo, mente ou, até mesmo, sociedade, e “cura” designa a integração desses opostos em um todo orgânico, seja ele físico, psicológico ou sociocultural.

Logo, reportei-me à peça para escrever o livro e, como vejo este blog como sua expansão, o fiz novamente para desenvolvê-lo.

O centauro ferido

Depois do monstro de Frankenstein, outro passou a chamar a minha atenção. Tratava-se do centauro Quíron.

Não obstante os centauros nem sempre sejam considerados monstros, talvez por não serem gigantescos nem destruidores, como tal possuem corpos com características mistas e inclinações de alma conflitantes. Sendo assim, à semelhança da criatura de Mary Shelley, são monstros, híbridos e fronteiriços.

Além do corpo, Quíron também têm um arcabouço mental cheio de conflitos. Ele se verifica no fato de que, além de ser um centauro, uma criatura meio animal e meio gente, Quíron é um semideus, um músico, um guerreiro e um tutor de grandes heróis da mitologia grega. Ou seja, ao mesmo tempo, uma besta selvagem inimiga dos homens e um ser culto próximo deles.

A sua alcunha de curador ferido vem do mito em que ele foi acidentalmente alvejado por uma flecha envenenada. O ferimento, que teria sido letal para qualquer outro, não o foi para ele, pois como semideus, Quíron não podia morrer. Assim, ele sofria de dores atrozes em eterna agonia.

Incapaz de curar a própria ferida, mas justamente por sua causa, ele se aperfeiçoou mais e mais na cura de lesões, tornou-se um curador e passou a sanar as feridas alheias.

O personagem, portanto, é carregado de simbolismo. Nele o semideus, o semi-humano e o semianimal, reúne em si aspectos físicos, psicológicos e socioculturais que se digladiam e provocam uma “doença” ou ferida que se materializa, sobretudo, em um corpo híbrido.

Todavia, o próprio mito sugere uma cura ou, ao menos, a amenização do sofrimento com a integração desses aspectos conflitantes, pois mesmo que a dor e o sofrimento não desapareçam de todo, são assim amenizados.

Monstros, híbridos e fronteiriços

Em primeiro lugar, no sentido de estarmos divididos entre forças contrárias e vivendo em linhas bastante difusas no que se refere ao corpo, sentimentos, comportamentos, culturas e instituições, somos todos monstros, híbridos e fronteiriços.

Em segundo, a sociedade que construímos e em que vivermos continuamente nos expõe ao contato com fronteiras diversas. Assim sendo, é ela também monstruosa.

Finalmente, como antídoto para essa realidade esquizóide, ou como uma possível cura para ela, creio ser a arte uma grande aliada na integração dessas facetas dissonantes.

Por conseguinte, penso que todos nós, por um motivo ou outro, podemos nos espelhar em monstros, já que dramas míticos, inclusive aqueles muito antigos que os retratam, guardam uma íntima relação com a vida contemporânea.

Daí o objetivo deste blog: possibilitar a transformação de frankensteins em quírons, de feridos em curadores e de pacientes em agentes.