Roda de Cura/Centauros Feridos

Arte e seres híbridos: transgressões e integrações de fronteiras

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Escultura de Spartak Dermendjiev

Sobre o blog

Como conclusão da minha graduação em dança, reflexões sobre um monstro da ficção – nosso conhecido Frankenstein –, originaram uma peça chamada “Dorme, dorme, Frankenstein”.

Em vez de prosseguir minha carreira de dança, como eu pretendia, no ano seguinte eu fiz uma cirurgia neurológica. Em decorrência dela, fiquei com metade do corpo parcialmente paralisado. Associei este acontecimento à peça e passei a ver meu corpo como “frankensteiniano”.

Alguns anos depois, fiz uma especialização lato-sensu em Arte-terapia e após outro intervalo de tempo, um mestrado stricto-sensu em Sociologia e Antropologia da Religião.

Na especialização, vi o papel da arte na cura ou na terapêutica de algumas patologias, transgressões ou afastamento da norma. Soube também que, não raro, esses movimentos geram angústias cujas expressões e soluções encontram-se nas artes.

Já no programa de pós-graduação eu me deparei com questões como contemporaneidade, hibridismo e espaços fronteiriços, bem como com outras leituras acerca de saúde, doença e cura.

Percebi, então, intersecções profícuas entre as questões surgidas na graduação, na especialização e na pós-graduação, de forma que algo até então individual, ganhou dimensões coletivas.

Agora, espero que a partir disso, um caminho inesperado, contemporâneo e híbrido tenha começado a se delinear para mim. Nele persiste a ideia de eu lidar com monstros e seres híbridos, já que os vejo de modo amplo e metafórico.

Sendo assim, a “doença” refere-se aos embates entre aspectos conflitantes que aparecem em um único corpo, mente ou, até mesmo, sociedade. Ou seja, ocorre por conta de aspectos que tornam os organismos híbridos, fronteiriços ou, metaforicamente, monstruosos; a “cura” designa a integração desses opostos em um todo orgânico, não importa se físicos, psicológicos ou socioculturais; e a arte é a grande promotora desse processo.

Monstros, híbridos e fronteiriços

Segundo esse raciocínio, no sentido de estarmos todos divididos entre forças contrárias ou vivendo em linhas bastante difusas no que se refere ao corpo, sentimentos, comportamentos, culturas e instituições, somos todos monstros, híbridos e fronteiriços.

Além disso, a sociedade que construímos e em que vivemos continuamente nos expõe ao contato com fronteiras diversas. Portanto, é ela também monstruosa.

E então, como um antídoto para essa realidade esquizóide, ou como uma possível cura para ela, creio ser a arte uma grande aliada na integração dessas facetas dissonantes.

Consequentemente, penso que todos nós, por um motivo ou outro, podemos nos espelhar em monstros. Ademais, os dramas míticos que os retratam, inclusive aqueles muito antigos, guardam uma íntima relação com a vida contemporânea.

Assim, reportei-me à peça e ao tema de monstros para escrever o livro Curadores feridos e outros frankensteins: quinze aposta nos opostos (leia parte dele em inglês aqui). Por considerar este blog como sua expansão, o fiz novamente para desenvolvê-lo.